Academia de Jiu-Jitsu, 1930 – A primeira do Brasil

Qual foi a primeira academia de Jiu-Jitsu do Brasil? Consultando a Hemeroteca da Biblioteca Nacional, verificamos que ela foi aberta no Rio de Janeiro em 1930 com o nome “Academia de Jiu-Jitsu”. Essa academia era dirigida por Donato Pires dos Reis e contava com os professores Carlos Gracie e Jorge Gracie.

O Correio da Manhã do dia 9 de setembro de 1930, trouxe um artigo sobre sua inauguração:

 

Com a presença dos representantes da imprensa, inaugurou-se sabbado a Academia de Jiu-Jitsu, á rua Marques de Abrantes numero 106, sob a direcção do do professor sr. Donato Pires dos Reis, a qual conta com optimos professores, como o sr. Carlos Gracie, campeão do Brasil, o sr. Jorge Gracie, jovem de 18 annos, que tambem pertence ao corpo docente, e é um ágil lutador.

Agradaram bastante as provas de efficiencia dos golpes para desarmar o adversario armado de punhal, que causaram emoção em toda a assistencia, havendo também uma luta corporal desenvolvida entre os srs. Edgard Rocha, conceituado sportman de 90 kilos e bella organição de athleta com o sr. Carlos Gracie, de 59 kilos apenas, que o dominou ao fim de 160 segundos de luta corporal.

Em saudação aos representantes da imprensa o sr. Alarico Cintra proferiu o seguinte discurso:

 

“Meus senhores: Aos dignos representantes da imprensa desta capital desde já manifestam, por meu intermédio, os professores Donato Pires dos Reis, Carlos Gracie e Jorge Gracie effusivos agradecimentos pela honra das suas presenças nesta sala, onde, preliminarmente vão demonstrar o melhor methodo de defesa pessoal até hoje conhecido para o ensino, incapaz de se afeiçoar ás armas de fogo e aos instrumentos fataes ao mesmo semelhante.”

O Jiu-Jistu, esse recurso formidável de defesa pessoal está sempre comnosco, caracterizando esse sistema de luta e prudencia e a segurança com que, armados nós com as forças naturaes dos nossos orgãos, pelo conhecimento dos pontos melindrosos do corpo humano e dos golpes infalíveis para pormos em cheque as articulações do aggressor – serenamente podemos reagir na contingencia de ataques dos máos, degenerados, dos perversos que avultam na collectividade social.

Nossos assistentes, pela visão dos factos ficarão habilitados a affirmar aos aquinhoados de biceps de athletas, covardemente usados muitas vezes em cima dos fracos, na mansa despreocupação de que jámas poderão ser dominados, que precisam dosar as attitudes de atrevimentos e provocações tão proprias de certos indivíduos pandos de arrogancia.

Todo aquelle que se tornar senhor dos segredos das chaves do Jiu-Jitsu ficará apto a fechar os instinctos do máo, do tarado, do assassino, na sala escura da sua propria consciencia, dominando, sem custo, creaturas nocivas aos meios sociaes, creaturas que não velam o classico tiros das suas victimas, de repercussões dolorosas, num lar até então feliz, cheio de bondade de um chefe que se viu arrastado ao assassinio pela contingencia organica da sua inferioridade physica.

A defesa social encontra, portanto, no Jiu-Jitsu o melhor meio de realizações proveitosas, fora do campo das violencias deprimentes a que recorrem as autoridades para dominarem os desordeiros que, na maioria dos casos, habitualmente, apparecem como heroes de desordens pela illusão em que vivem de ninguem lhes surgir á frente a lhes exprobar os desatinos.

Meus distinctos amigos, professores Donato Pires dos Reis, Carlos Gracie e Jorge Gracie mestres de Jiu-Jitsu – esse meio excellente de lutar, generalizado entre os nippões pigmeus, transformados assim em dominadores de gigantes – já se manifestaram, pelos termos das cartas as redações de jornaes, homens decididos á corporificações das suas promessas, desde quando se propõem a medir vantagens com qualquer pessoa habilitada em qualquer outra escola de luta corporal.

Não devo assim, prosseguir na luta… com palavras.

Tambem os prospectos da Academia de Jiu-Jitsu habilitarão melhor os dignos srs. representantes da imprensa a conceituarem sobre o patriotico emprehendimento que marcará, sem duvida, um grande acontecimento de palpitante interesse da nossa mocidade, ainda empolgada por sports nos quaes, geralmente, a força – não a intelligencia – continua a definir e a apontar os campeões, os victoriosos.

Avante.

Que as almas dos fracos de corpo escutem, pelos quatro cantos do Brasil, as nossas palmas de animação á benemerita trindade patriacia que se propõe a diminuir as estatisticas dos assassinos e dos hospedes dos carceres.”

 

Consultando novamente a Hemeroteca da Biblioteca Nacional, verificamos que o nome “Academia Gracie” surge pela primeira vez na imprensa carioca, mais precisamente no jornal Correio da Manhã, no dia 9 de dezembro de 1934.

 

 

Houve alguma academia de Jiu-Jitsu em Belo Horizonte ou em Belém antes da Academia de Jiu-Jitsu do Rio de Janeiro?

Carlos e Hélio Gracie nasceram em Belém do Pará em 1902 e 1913, respectivamente,  e se mudaram para o Rio de Janeiro na década de 1920. Com relação a Donato Pires dos Reis, consta a informação de que ele morava em Belo Horizonte antes de se mudar para o Rio. Assim, pode ter havido uma academia de Jiu-Jitsu em Belém ou Belo Horizonte antes do Rio de Janeiro.

Consultando os jornais dessas duas cidades digitalizados na Hemeroteca da Biblioteca Nacional, é possível encontrar menções à luta nos primeiros anos do século XX, sem que haja a menção à uma academia propriamente dita. Naquela época, já havia no Brasil pessoas que ensinavam o Jiu-Jitsu, mas sem recorrer ao formato de uma academia como a conhecemos. Sendo assim, é possível dizer que a Academia de Jiu-Jitsu, inaugurada no Rio de Janeiro em 1930, foi a primeira do Brasil.

 

 

E a biografia “Carlos Gracie, o criador de uma dinastia”, escrito por Reila Gracie?

Em 2008, a editora Record publicou a biografia “Carlos Gracie, o criador de uma dinastia”, escrito por Reila Gracie. No livro, Reila escreve que a primeira Academia Gracie teria sido aberta no Rio de Janeiro em 1925.

Pesquisando sobre o assunto na internet, me deparei com o artigo “A biografia escrita por Reila Gracie e as fontes jornalísticas: revisando a história hegemônica” de Riqueldi Straub Lise, Natasha Santos-Lise, André Mendes Caprano e Fernando Renato Cavichiolli, publicada na revista “Movimento: Revista de Educação Física da UFRGS” em novembro de 2017. Neste artigo, os autores chamam atenção para algumas divergências entre as informações do livro e dos jornais da época, citando, por exemplo, o já mencionado artigo “A Inauguração da Academia de Jiu Jitsu” publicado no dia 9 de setembro de 1930 pelo jornal Correio da Manhã.

Reparem que o endereço das duas academias é exatamente o mesmo: Rua Marques de Abrantes nº 106. Ou seja, em algum momento entre 1930 e 1934, Donato Pires dos Reis saiu da sociedade e Carlos Gracie assumiu a academia e mudou seu nome para Academia Gracie.

Só vejo uma possibilidade para que Reila Gracie considerasse o ano de 1925 em seu livro: Carlos Gracie dava aulas particulares em sua casa, onde viria a ser instalada a Academia de Jiu-Jitsu em 1930.

 

1925 – Academia Gracie, o sonho vira realidade

Pouco depois do episódio da prisão, Carlos voltou ao Rio de Janeiro de trem, na companhia de George. Inicialmente, ficaram hospedados no Hotel Vitória, na rua do Catete. Ele pretendia alugar um prédio ou uma casa espaçosa, onde pudesse montar uma academia e abrigar toda a família. Seus poucos recursos financeiros, no entando, o obrigaram a contentar-se com uma casa não muito grande na rua Marquês de Abrantes, 106. O imóvel não correspondia ao que sonhara, mas atendia às suas necessidades prementes. Hélio e George forma logo morar com Carlos; Oswaldo e Gastãozinho, que trabalhavam com o pai, pouco depois também se mudaram para lá. Foi nessa época que Carlos começou a ser dedicar e aprimorar o jiu-jitsu dos irmãos, ensinando-lhes novas técnicas, o programa inteiro de defesa pessoal e tática de luta que havia desenvolvido durante o tempo em que permaneceu em Belo Horizonte e São Paulo. Gastão era baixo, porém pesado e forte. Não gostava de lutar, mas tinha jeito para lidar com os alunos, e como já havia tido aulas em Belém, não demorou a assimilar os novos ensinamentos para ajudar como instrutor. Com Oswaldo foi a mesma coisa, exceto pelo fato de que ele era bom de briga e estava dispostos a participar dos desafios. George melhorou muito, e Hélio, devagar, foi assimilando o aprendizado e participando dos treinos.

Não era só a parte abastada da família Gracie que desprezava a profissão de lutador. Para a sociedade da época, a profissão era malvista porque, em geral, era praticada por homens fortes e com pouca instrução. Cesalina chorou muito quando os filhos decidiram assumir tal carreira: “Vocês são de família de diplomatas e netos de um Comendador do Império, vão querer ser lutadores? que vergonha!”, dizia. Ela custou a aceitar a profissão que Carlos escolhera e influenciara os irmãos a seguir. Carlos sabia que no mundo masculino a luta sempre foi considerada importante, e que um bom lutador, fosse ele pobre, rico, preto, branco, vermelho ou amarelo, sempre seria respeitado pela ala masculina. Por mais que a mãe tentasse convencê-los de que aquela era uma profissão de gente pobre e ignorante, a referência que ele possuía de lutador era mestre, o Conde Koma, cuja postura de nobreza inspirava respeito a todos em Belém. O fato de Cesalina estar morando na casa da sogra agravava ainda mais o seu descontentamento, pois o ambiente da família Gracie era requintado, e os parceiros de suas cunhadas e cunhados eram bem posicionados na sociedade e compartilhavam da mesma opinião que ela.

Uma vez inaugurada a Academia Gracie de Jiu-Jitsu da rua Marquês de Abrantes 106, Carlos deu início a uma tradição de lutadores e professores que se multiplicaria nas décadas seguintes. Logo sua vida e a de seus irmãos começaria a mudar. Não havia academias de qualquer tipo abertas ao público, eram os clubes que ofereciam cursos ministrados por professores contratados. Mas embora pioneira, a academia Gracie não poderia ser considerada modelo, pois assim como seu pai havia montado uma fábrica de dinamite dentro de casa no Pará, Carlos fez da sala de visitas de sua casa uma academia, e ali dava aulas a quem o procurasse e aos irmãos. Aos poucos, à boca pequena, foram-se disseminando comentários sobre o seu nome, e aquela luta desconhecida, que eles praticavam, chamada jiu-jítsu, começou a despertar curiosidades no mundo esportivo e na malandragem carioca.

Carlos não havia perdido o interesse pelas rinhas de galo, cujos desafios e apostas alimentavam seu espírito competitivo e representavam um elo com sua infância em Belém do Pará. quando seus galos venciam, ainda ganhava um dinheiro extra que ajudava no sustento da casa. As rinhas de galo, assim como as touradas e os circos, haviam sido populares na época do Império. As touradas caíram em desuso, mas não os picadeiros; as rinhas também continuaram, e, apesar de proibidas, ainda atraíam gente de todo tipo, inclusive políticos e intelectuais.

Na segunda metade da década de 1920, Carlos ainda não possuía qualquer imóvel e lutava para sobreviver e dar casa e comida aos irmãos. Viver de dar aulas de jiu-jítsu naquela época não era fácil. Quase tudo era importado, e a desvalorização crescente da moeda empurrava a inflação para as alturas. A fim de contê-la, o presidente Artur Bernardes adotou uma política de arrocho monetário e fiscal que jogou o país numa recessão sem precedentes. Dominado por um sistema político primitivo e viciado, formado pelas oligarquias rurais, o Brasil continuava agrário e dependendo basicamente do mercado de café. Focos de resistência ao regime se formavam em vários pontos do país. Alguns partiram para a luta armada, que, mesmo debelada, fortaleceu a oposição, e acabou deflagrando a Revolução de 30, que para muitos não passou de um golpe.

Aos trancos e barrancos, ele continou mantendo sua academia. Os quimonos eram lavados na lavanderia do bairro, e quando o funcionário aparecia para cobra, Carlos sem dinheiro, mandava-o voltar em dez dias. Conhecendo a sua fama de lutador, o sujeito não contestava, e assim ele ia rolando suas dívidas. Além de dar suas aulas, Oswaldo e Gastão, mais independentes, se viravam como podiam para não depender do irmão. Quando o rendimento da academia diminuía, Carlos promovia lutas à base de apostas, como faziam os marinheiros pugilistas no cais do porto. Sem acesso aos espaços nobres, qualquer lugar era válido, fosse na própria academia ou em plena rua. As apostas eram estipuladas em função das necessidades e circunstâncias do momento. Sempre encontrava alguns desavisados, que, subestimando seu corpo franzino, se prontificavam a medir forças com ele e perder alguns tostões. Quando Carlos se via frente a frente com o adversário, fixava os olhos nos dele, deixando transparecer uma segurança inacabável; antes mesmo da luta começar, o outro já se sentia derrotado. Para atrair esses lutadores e divulgar o jiu-jítsu – e o nome Gracie -, ele fazia de tudo, inclusive oferecer, por meio de anúncios nos jornais, prêmios em dinheiro para os desafiantes que conseguissem derrotá-lo, independentemente de peso, altura e tamanho. chegou a publicar um anúncio contendo a seguinte pérola: “Se você quer ter a sua face esmurrada e arrebentada, seu traseiro chutado e seus braços quebrados, entre em contato com Carlos Gracie neste endereço”, e seguia-se o endereço da Academia Gracie.

Seguindo uma tendência já existente na Europa e nos Estados Unidos, impulsionada pelo advento das Olímpiadas, o culto à saúde e ao corpo também entrou em voga no Brasil. No final da década de 1920 a imprensa passou a dedicar mais espaço aos esportes e também se tornou patrocionadora de competições amador=as de luta livre e greco-romana. Atraídos pelo sucesso desses eventos, alguns empresários do entretenimento perceberam que os programas de lutas eram lucrativos. Além das competições esportivas, passaram a promover desafios entre lutadores, porém, com exceção do boxe, a maioria das lutas era combinada, e a organização dos evento, marcada pelo improviso. Naquela época, todos os esportes ainda era amadores, e quando, no caso das lutas, os atletas recebiam algum dinheiro, não passava de uma pequena porcentagem das apostas. Com o tempo, o apoio dos jornais dez aumentar a presença do público, abrindo uma frente importante para os praticantes de todos os tipos de luta. Atento, Carlos acompanhava a programação de perto e logo encontraria um meio de inserir o jiu-jítsu no circuito profissional.

 

Gracie, Reila, Carlos Gracie: o criador de uma dinastia / Reila Gracie. – 2ª Ed. – Rio de Janeiro: Record, 2008.

 

Foto meramente ilustrativa obtida na internet.

 

 

Jorge Priori

 

 

2 Comments

  1. A primeira academia de Jiu-Jitsu do Brasil foi instalada no Atlético Rio Negro Clube, em Manaus, no ano de 1916. Era comandada pelo Mestre Soishiro Satake que veio ao Brasil com a trupe do Conde Koma.

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    1. Yan, obrigado pelo comentário.

      Para escrever esse artigo, eu consultei a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional. Pelas informações que constam no seu banco de dados, tudo indica que a “Academia de Jiu-Jitsu” de 1930 foi a primeira. Isso não quer dizer que não havia pessoas ensinando Jiu-Jitsu antes, mas com uma estrutura semelhante ao que conhecemos como academia, tudo indica que foi a do Rio de Janeiro.

      Com base no seu comentário, eu voltei ao banco de dados e fiz uma nova consulta aos jornais do Amazonas das décadas de 1900, 1910 e 1920 com a expressão “Jiu Jitsu” sem hífen. Dos 7 registros indicados, nenhum é referente a uma academia. Acredito que o Satake dava aulas no Rio Negro da mesma forma como se dava aulas em casa, como o Maeda, por exemplo. Entendo que nas três primeiras décadas, dava-se aulas onde se tinha oportunidade de ministrá-las.

      Caso você tenha alguma informação que vá além da Hemeroteca da Biblioteca Nacional, por favor, me avise.

      Abs, Jorge

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