O Carioca de 1986 – Fluminense, o WO para o Americano e o tetracampeonato desperdiçado

Em 1986, o Fluminense deixou escapar a chance de lutar pelo tetracampeonato carioca, feito obtido apenas duas vezes em toda a história do campeonato, sendo uma com o próprio Fluminense, 1906, 1907, 1908 e 1909, e a outra com o Botafogo, 1932, 1933, 1934 e 1935.

 

Com algumas variações, a história seria que o Fluminense não teria comparecido ao jogo contra o Americano devido a um surto de dengue. Isso fez com que a Federação aplicasse injustamente o WO (walkover) ao clube. Uma das versões era de que o surto havia sido em Campos, sendo essa a razão pela qual o Fluminense não fosse disputar o jogo.

 

Revisitando a tabela do Estadual de 1986 na RSSSF e consultando o acervo digital do Globo, verifiquei que a história não foi bem assim.

 

O FLUMINENSE E A TAÇA GUANABARA DE 1986

O Estadual de 1985, quando o Fluminense conquistou o seu último tricampeonato, foi disputado no segundo semestre do ano. No ano seguinte, em 1986, o Estadual foi disputado no primeiro semestre. Ou seja, o Fluminense veio quente da conquista do tricampeonato, mas estreou da pior forma possível, tomando uma goleada do Flamengo por 4×1, com três gols do Zico, já na primeira rodada. O time se recuperou e venceu os quatro jogos seguintes. Na sexta rodada, tomamos um novo chocolate para ninguém mais, ninguém menos, que o Goytacaz: 4×0. Nessa época, o Estadual era extremamente competitivo, e duas derrotas já significavam a eliminação do turno, que era disputado por pontos corridos. Na última rodada do primeiro turno, o terceiro chocolate: Botafogo 4×1. O Fluminense terminou a Taça Guanabara de 1986 de forma melancólica na quarta posição: foram 15 pontos em 11 jogos com 7 vitórias, 1 empate e três derrotas, as três por goleada, com 14 gols a favor e 13 contra. A vitória nessa época valia 2 pontos (passou a valer 3 em 1995).

 

O Vasco foi o campeão do turno e garantiu sua classificação para a final. Por esta Taça Guanabara, o Fluminense venceu o Americano por 2×0 no Rio (9ª rodada, 06/04/1986).

 

O FLUMINENSE E A TAÇA RIO DE 1986

No segundo turno, vida nova, e o Fluminense resolveu correr atrás do prejuízo. Afinal de contas, tinha time para isso. Nas duas primeiras rodadas, duas vitórias: 2×0 Goytacaz e 1×0 Olaria. Na terceira rodada, um vacilo imperdoável: 1×1 Mesquita. Na quarta rodada, no dia 18/05/1986, veio o famoso jogo contra o Americano, quando o Fluminense não foi a Campos por causa de um surto de dengue.

 

O Fluminense tentou remarcar a partida, mas a Federação, no primeiro ano da presidência do falecido Eduardo Vianna, o famoso Caixa d’Água, torcedor declarado do Americano, não aceitou, e decretou a vitória do Americano por WO (Walkover).

 

Nas rodadas seguintes, o Fluminense venceu seus adversários. Faltando três rodadas para o final, mesmo com o problema da partida contra o Americano, o Fluminense tinha chance de vencer a Taça Rio de 1986, mas perdeu novamente para o Flamengo por 1×0, empatou com o Vasco por 1×1 e venceu o Bangu, vice-campeão brasileiro e estadual de 1985, por 1×0. Enquanto isso, o Flamengo, depois de vencer o Fluminense, empatou com o Bangu em 1×1 e venceu o Vasco por 3×2, conquistando a Taça Rio de 1986.

 

O Flamengo terminou com 17 pontos e o Fluminense com 16. Vasco e Bangu vieram em seguida com 13 pontos cada. E o Americano? Na 8ª posição com 10 pontos.

 

O FLUMINENSE E A CLASSIFICAÇÃO GERAL

Na época, havia a possibilidade do clube que somasse mais pontos, mesmo sem ter vencido um dos dois turnos, classificar-se-ia (abraços, Temer) para a final, que seria disputada no formato de triangular. Foi dessa forma que o Fluminense se classificou para o triangular final de 1984, quando conquistou o bicampeonato ao vencer o Vasco por 2×0 e o Flamengo por 1×0 (a partida que passou para a história foi a vitória contra o Flamengo e pouco se fala do jogo contra o Vasco pelo triangular).

 

Em 1986, o Flamengo terminou na primeira posição com 33 pontos. Fluminense e Vasco terminaram com 31 pontos. O Americano na 9ª posição com apenas 16 pontos (12 clubes disputaram esse campeonato).

 

O WO ELIMINOU O FLUMINENSE DA COMPETIÇÃO?

Eliminar, não eliminou, mas prejudicou sim. Mesmo assim, o Fluminense poderia ter conquistado a Taça Rio e se classificado para a final do campeonato. O que prejudicou tanto quanto o WO foi o empate com o Mesquita, antes do jogo contra o Americano.

 

Se o Fluminense tivesse vencido o Mesquita, ele teria empatado com o Flamengo com 17 pontos, forçando um jogo extra para decidir a Taça Rio. E se o Fluminense, além de vencer o Mesquita, tivesse comparecido e pelo menos empatado com o Americano, a Taça Rio de 1986 estaria envelhecendo nas Laranjeiras.

 

Além da classificação para a final pela conquista da Taça Rio, o Fluminense poderia ter se classificado pela maior soma de pontos. Se o Fluminense tivesse pelo menos empatado com o Goytacaz no primeiro turno e vencido o Mesquita no segundo, teríamos terminado com 33 pontos e empatado com o Flamengo na classificação geral, mesmo com o problema do WO. Nesse caso, o regulamento da época teria que ser consultado para se descobrir quais eram os critérios de desempate.

 

Agora, se o Fluminense tivesse vencido o Goytacaz no primeiro turno e o Mesquita no segundo, mesmo com o WO, o clube teria obtido a maior soma de pontos e a final seria disputada num triangular-final (Vasco, vencedor da Taça Guanabara, Flamengo, vencedor da Taça Rio, e Fluminense, maior soma de pontos no campeonato).

 

Destaquei tanto esses dois jogos, Fluminense 0x4 Goytacaz, no primeiro turno, e Fluminense 1×1 Mesquita, no segundo turno, pois esses resultados foram demasiadamente aberrativos. Eles influenciaram tanto no destino do clube no campeonato quanto o WO. Nos clássicos o Fluminense teve um desempenho muito ruim com 3 derrotas, 2 empates e apenas uma vitória, mas não fiquei tentando encontrar resultados positivos nos 5 clássicos em que o Fluminense não venceu.

 

O QUE ACONTECEU DE FATO?

No dia do jogo, 18/05/1986, O Globo, na parte de Esportes, página 49, trazia a manchete “Flu alega dengue e não enfrenta o Americano”. A reportagem informava que os médicos Paulo Francisco Almeida Lopes, da comissão estadual que estudava a epidemia de dengue, e Celso Ferreira Ramos Filho, professor do Departamento de Medicina Preventiva da UFRJ, estiveram nas Laranjeiras e constaram que vários jogadores estavam contagiados por uma virose respiratória. O VP de Futebol da época, Antônio de Castro Gil, havia tentado entrar em contato com o presidente da Federação, Eduardo Viana, mas não havia conseguido contato.

 

A origem do problema havia surgido dias antes, quando Renê e Renato haviam aparecido nas Laranjeiras com sintomas de dengue. Os dois foram afastados para que os outros jogadores não adoecessem, mas em seguida outros jogadores passaram a se queixar de dificuldades respiratórias e mal-estar permanente.

 

Vica, Tato, Eduardo, Galo, Rogéio, Edson Souza, Ricardo Gomes, Maurão e Beto foram examinados e alguns deles, de fato, estavam com dificuldades respiratórias (o clube não disse quem). A preocupação do clube era que os jogadores doentes pudessem transmitir a doença para os outros jogadores em ambientes fechados. O deslocamento para Campos seria feito através de ônibus e os jogadores ficariam hospedados por dois dias num hotel.

 

Nesse mesmo dia, o Americano chamou o policiamento, vendeu os ingressos para a partida, entrou em campo e ficou esperando o Fluminense por 20 minutos junto com o árbitro Aluísio Viug. Vencido o prazo, todos foram embora e Viug deu a vitória ao Americano por WO.

 

No dia 20/05/1986, o Globo já trazia a informação de que o Fluminense, além da perda dos pontos, poderia ser eliminado do Estadual. O caldo começava a engrossar. E o clube, sem se dar conta da situação, ainda estava com o blablabla de que poderia não ter condições de comparecer ao jogo contra a Portuguesa (o Fluminense se deu conta da encrenca em que havia se metido, compareceu e venceu por 2×0, 25/05/1986).

 

Detalhe: em 1986, nós tínhamos a Copa do Mundo. O Estadual parou no dia 29/05/1986 (teve ainda dois jogos no dia 08/06/1986: Americano 0x4 Bangu e América 1×0 Mesquita) e voltou apenas no dia 02/07/1986 com a partida Bangu 1×1 Goytacaz. O julgamento do WO do Fluminense foi justamente nessa parada.

 

No dia 10/06/1986, o WO do Fluminense foi julgado. O clube alegou que não compareceu pois “vários de seus jogadores estavam contaminados por uma virose respiratória”. Aqui eu me pergunto: mas o problema não era dengue?????

 

O julgamento terminou com a manutenção do WO por 7 votos a 4. A notícia não saiu no dia 11/06/1986 pois o julgamento havia terminado às 4 da madrugada, quando o jornal já estava sendo impresso para distribuição. A notícia saiu apenas no dia 12/06/1986. O Fluminense prometeu recorrer ao STJD, e caso o WO fosse mantido, à Justiça Comum, mas, até onde sei, não fez nada disso.

 

CONSIDERANDO A VERSÃO DE QUE O SURTO FOI EM CAMPOS, HOUVE JOGOS NA CIDADE NESSE PERÍODO DO WO?

Como disse no início do texto, uma das versões que foram construídas, eu disse, uma das versões, era de que o surto havia sido em Campos. Mesmo sabendo que essa informação está errada, verifiquei se nesse período houve jogos ou não na cidade.

 

A partida entre Fluminense e Americano em Campos seria disputada no dia 18/05/1986. Nos dias 08/05/1986 e 11/05/1986, o Americano jogou normalmente em Campos, perdendo primeiro para o Vasco por 3×2 e empatando com o Olaria em 0x0. No dia 25/05/1986, o Americano seria derrotado pelo Campo Grande por 1×0 em Campos. Ou seja, os jogos estavam acontecendo em Campos.

 

Por sua vez, o Goytacaz não é parâmetro para essa análise. Ele jogou em Campos no dia 04/05/1986, 0x0 Mesquita, e só voltou a disputar uma partida na cidade no dia 29/05/1986, quando foi derrotado pelo Olaria por 2×1.

 

CONCLUSÃO

O Fluminense não perdeu a chance de lutar pelo tetracampeonato só por causa do WO para o Americano pela quarta rodada da Taça Rio de 1986. Ele perdeu por causa do WO, da goleada do Goytacaz, do empate com o Mesquita e do seu desempenho ruim nos clássicos (três derrotas, um empate e uma vitória), o que o impossibilitou de vencer a Taça Rio de 1986 ou de somar a maior quantidade de pontos considerando os dois turnos, forçando a realização de um triangular-final. O que passou para a história foi apenas o WO, mas tivemos outros erros.

 

MINHA OPINIÃO

A Diretoria do Fluminense, presidido na época pelo Manoel Schwartz, cometeu um erro estúpido, infantil e grosseiro. Fez irresponsavelmente a aposta errada e ao não comparecer ao jogo. Tanto que quando quis fazer a mesma coisa com o jogo seguinte, contra a Portuguesa, viu o tamanho do problema e recuou. O Fluminense correu o risco de ser eliminado do campeonato.

 

O time deveria ter ido a Campos e disputado o jogo. Essa história de não comparecer para resolver depois só atrapalhou o clube, que jogou a chance de lutar pelo tetracampeonato na lata do lixo. Sinceramente, o que fizeram, não existe. Se a partida tivesse sido remarcada antes da data prevista da disputa, tudo bem. Como não foi, dane-se, apresente-se e dispute o jogo.

 

Eu vou mais além: mesmo com uma Federação favorável e com um ótimo relacionamento, não se faz o que o Fluminense fez. Antes de tudo, tem que se obter a remarcação da partida. É importante destacar isso pois o ano de 1986 foi o primeiro ano da presidência do Eduardo Viana e marca o início do fortalecimento do Eurico Miranda no Vasco. Hoje é fácil avaliar que esse ano marcou uma nova fase na história do Fluminense, diga-se de passagem, extremamente negativa, muito por conta da falta de postura e atitude do próprio clube, mas a Diretoria da época, apesar do erro grosseiro, não tinha elementos para ter uma visão clara das mudanças de rumo que se iniciavam. A diretoria do Fluminense, presidido na época pelo Manoel Schwartz, apostou errado, de forma irresponsável, perdeu e jogou a chance de conquistarmos o tetracampeonato na lata do lixo.

 

AS PAPELETAS AMARELAS

O Estadual de 1986 ficou marcado por esse escândalo do Flamengo. No que consistia esse esquema? O Conselho Fiscal do Flamengo descobriu que haviam sacado 300 mil cruzados no caixa do clube (não consegui converter esse valor para Real, mas tudo indica que era muito dinheiro para a época). Questionados, os dirigentes do Flamengo disseram em uma reunião do Conselho Deliberativo que os recursos foram usados para subornar juízes (cara, tem que ser muito burro, muito estúpido, muito imbecil, muito idiota para dizer isso abertamente numa reunião desse porte). A barra pesou, o problema vazou para a imprensa e a crise se instalou na Gávea. Os dirigentes do Flamengo, presidido na época por George Helal (está vivo), foram mudando as versões do uso do dinheiro, sem, no entanto, provar no que ele foi utilizado (não apresentaram documentos). Pelo que eu pude apurar, a versão final foi de que os recursos foram utilizados para incentivar os pequenos clubes do Rio em jogos contra os principais rivais do Flamengo, num chamado “doping positivo”. Com o tempo, o caso caiu, propositalmente, no esquecimento. Em momento algum, apareceu a informação de que jogos teriam sido manipulados e de que juízes teriam sido subornados.

 

Há um vídeo muito bom no Youtube com três reportagens do Globo Esporte da época, sendo que duas delas tratam das Papeletas Amarelas. A terceira mostra a reclamação do Vasco com a atuação do juiz na derrota por 3×2 para o Flamengo, pela última rodada da Taça Rio, e a preocupação com os juízes da final, que seria disputada em dois jogos, podendo ser três (acabou sendo três mesmo: 0x0, 0x0 e Flamengo 2×0). O Vasco não tinha mais chance de conquistar a Taça Rio, mas a vitória nesse jogo, que daria o título do turno ao Fluminense, faria com que o clube jogasse com a vantagem do empate na final. Foi por isso que o time de São Januário levou essa partida a sério, quis vencê-la e reclamou muito da arbitragem.

 

E por que o nome “Papeletas Amarelas”? Porque o controle de saque do caixa do Flamengo, para posterior prestação de contas, era feito com papeletas nessa cor.

 

Consultando o acervo digital do Globo, verifiquei que a primeira menção a esse escândalo aconteceu no dia 05/10/1986, numa referência a um debate numa rádio onde os candidatos à presidência do Flamengo trocaram acusações sobre esse assunto. É possível que esse assunto já tivesse circulado antes da primeira aparição no Globo, mas, isso foi depois do fim do Estadual, que terminou no dia 10/08/1986.

 

Tabela do Campeonato Carioca de 1983 (link)

Tabela do Campeonato Carioca de 1984 (link)

Tabela do Campeonato Carioca de 1985 (link)

Tabela do Campeonato Carioca de 1986 (link)

 

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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