O Fluminense e as decisões por pênaltis – até 2020

Em todas a sua história, o Fluminense já disputou 73 decisões por pênaltis, com 33 vitórias e 39 derrotas. Bem, a soma de 33 + 39 é 72, e não 73. Isso porque o Fluminense tem um curioso empate: 22/08/1986, 4×4 Real Valladolid pelo Torneio de Vigo.

 

O Globo, 23 de agosto de 1986, Página 23

Flu empata com Valladolid e hoje decide Torneio de Vigo com Celta

Depois dos 90 minutos, houve disputa por pênaltis, que terminou empatada em 4×4 – Leomir, Édson Souza, Romerito e Ricardo marcaram para o Fluminense. O lateral-esquerdo Renato foi o único da equipe que não marcou: o goleiro Fenoy – que que também cobrou e marcou um dos pênaltis para o time espanhol – defendeu a cobrança. O apoiador Jorge foi o único do Valladolid a desperdiçar a penalidade, chutando para fora. Não houve segunda série porque as cobranças só serão consideradas válidas caso haja empate entre os três clubes que disputam o Torneio.

 

 

Mas por que não nos lembramos de todas essas decisões? Essa resposta tem três explicações:

 

  1. Torneio Início – vinte e uma decisões com 13 vitórias e 8 derrotas. O Torneio Início foi disputado de forma descontinuada de 1916 a 1977. Todos os jogos eram disputados em um único dia. Para isso, as partidas tinham apenas 15 minutos. Em geral, se não houvesse um vencedor, venceria quem tivesse mais escanteios a favor. Persistindo o empate, haveria uma decisão por pênaltis com 3 cobranças, todas feitas pelo mesmo jogador. Os mais antigos lembrarão desse torneio, exótico aos olhos de hoje.

 

Em 1956, Pinheiro cobrou 12 pênaltis pelo Fluminense no mesmo dia, convertendo 11 (3×2 Botafogo, 5×4 Bangu e 3×2 Canto do Rio). Em 1965, o Fluminense teve 15 pênaltis cobrados com 13 convertidos, sendo que 9/9 por Gílson Nunes (3×0 Campo Grande e 6×5 America) e 6/4 por Lula, responsável pelas cobranças da decisão contra o Flamengo (4×3);

 

 

  1. Amistosos e torneios diversos – vinte e uma decisões com 6 vitórias, 1 empate e 14 derrotas. Em amistosos, nós tivemos 7 decisões com uma vitória e 6 derrotas. Em torneios diversos como Teresa Herrera, Zurique, Vigo, Kiev e a Copa Rio de Janeiro, nós tivemos 14 decisões com 5 vitórias, um empate e 8 derrotas.

 

A Copa Rio de Janeiro foi criada em 1991, sendo disputada de forma descontinuada desde então. No início, ela tinha a participação dos grandes clubes. O Fluminense foi vice-campeão em 1992 e 1994, e campeão em 1998.

 

 

  1. Campeonato Brasileiro de 1988 – neste ano, todo jogo que terminava empatado tinha uma disputa por pênaltis para decisão de um ponto extra. O Fluminense teve 3 vitórias e cinco derrotas. Em toda a história do Campeonato Brasileiro, essa foi a única vez em que houve esse tipo de disputa.

 

 

Com isso nós já temos 50 decisões de um total de 73, faltando vinte e três. São justamente essas as mais vivas em nossa memória.

 

Elas foram disputadas no campeonato estadual (11 decisões com 6 vitórias e 5 derrotas), campeonatos regionais (três decisões com uma vitória e duas derrotas), campeonatos nacionais como o Brasileiro e a Copa do Brasil (5 decisões com duas vitórias e três derrotas) e campeonatos sul-americanos (4 decisões com duas vitórias e duas derrotas).

 

Dessa sequência, a primeira é justamente a Semifinal do Brasileiro de 1976. Depois de um empate em 1×1 com o Corinthians no tempo normal, o Fluminense foi derrotado por 4×1 nos pênaltis.

 

 

Estadual – Onze decisões com seis vitórias e cinco derrotas

Essas decisões são compostas por decisões de turno (4 decisões com três vitórias e uma derrota), semifinais de turno (6 decisões com três vitórias e três derrotas) e uma semifinal de estadual (derrota).

 

Em 1980, depois de empatar com o Vasco em 1×1 no tempo normal, o Fluminense conquistou a Taça João Baptista Coelho Netto “Preguinho”, primeiro turno do estadual daquele ano, ao vencer a decisão por pênaltis por 4×1. Pelos critérios que estou utilizando nessa análise, essa foi a primeira vitória importante do Fluminense em sua história.

 

Em 2001, nós perdemos a Taça Guanabara para o Flamengo nos pênaltis por 5×3 (1×1 no tempo normal). Essa foi a decisão em que o Murilo defendeu uma cobrança do Flamengo, a quarta, quando a bola pegou um efeito e voltou para o gol vazio. Como Magno Alves havia perdido a segunda cobrança do Fluminense e o Flamengo converteu suas 5 cobranças, não houve necessidade do Fluminense cobrar a quinta penalidade.

 

Em 2017, foi a nossa vez de devolvermos a derrota ao Flamengo, ao vencermos a Taça Guanabara nos pênaltis por 4×2 (3×3 no tempo normal).

 

Nas semifinais de turno, nós temos, por exemplo a vitória contra o Vasco pela semifinal da Taça Rio de 2005, quando o Fluminense venceu por 8×7, e a derrota para o Boavista na Taça Guanabara de 2011, quando o Fluminense perdeu por 4×2.

 

A semifinal de estadual foi disputada em 2015 contra o Botafogo. No primeiro jogo, vitória do Fluminense por 2×1. No segundo jogo, o placar foi devolvido pelo Botafogo e a vaga na final seria decidida nos pênaltis. O Fluminense perdeu por 9×8.

 

 

Regionais – Primeira Liga e Torneio Rio x São Paulo – três decisões com uma vitória e duas derrotas

A vitória do Fluminense foi pela “incrível” Primeira Liga de 2016, quando derrotamos o Internacional-RS por 3×2 nas semifinais.

 

As duas derrotas foram para o São Paulo pelo Torneio Rio x São Paulo. Em 1997, pela primeira fase, 4×5 (2×2 no primeiro jogo e 1×1 no segundo). Em 2001, o Fluminense perdeu a vaga na final do Torneio ao ser derrotado por 7×6 (0x1 no primeiro jogo e 2×1 no segundo).

 

 

Campeonatos Nacionais – cinco decisões com duas vitórias e três derrotas

Já mencionei a derrota para o Corinthians na semifinal do Brasileiro de 1976. Com peso similar, nós temos a derrota para o Palmeiras na Copa do Brasil de 2015, quando fomos derrotados por 4×1 (o Fluminense venceu o primeiro jogo por 2×1 e perdeu o segundo pelo mesmo placar). Lembrando que o Fluminense foi decidir uma vaga na final da Copa do Brasil, na casa do Palmeiras, sem ter treinado pênaltis. Isso foi reconhecido pelo próprio clube. Só no Fluminense mesmo…

 

A terceira derrota foi para o Cruzeiro em 2019, pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil: 3×1 (1×1 no primeiro jogo e 2×2 no segundo).

 

As vitórias do Fluminense têm peso inferior: 9×8 Treze, pelas quartas-de-final da Copa do Brasil de 2005, e 3×2 Santa Cruz, por uma das fases iniciais da Copa do Brasil de 2019.

 

 

Torneios Sul-Americanos (Copa Conmebol, Sul-Americana e Libertadores) – duas vitórias e duas derrotas

Aqui nós temos a derrota para o Atlético-MG pelo Conmebol de 1993, 2×4, e duas vitórias pela Sul-Americana: 2005, 4×2 Santos, e 2006, 4×2 Botafogo.

 

A quarta decisão foi pela final da Libertadores de 2008: Fluminense 1×3 LDU. Vou nos poupar do comentário.

 

 

Por que o sentimento é ruim quando o Fluminense vai para uma decisão por pênaltis?

Essa resposta é simples: porque quando é importante, o Fluminense perde muito mais do que ganha. Sendo mais preciso, o Fluminense já teve 9 decisões importantes com apenas três vitórias e 6 derrotas. É isso o que fica nas nossas cabeças e passa para a história. Segue a relação das decisões mais importantes de toda a história do clube:

 

1976, 1×4 Corinthians, semifinal do Brasileiro;

1980, 4×1 Vasco, decisão da Taça João Baptista Coelho Netto “Preguinho”;

2001, 6×7 são Paulo, semifinal do Torneio Rio x São Paulo;

2001, 3×5 Flamengo, decisão da Taça Guanabara;

2008, 1×3 LDU, decisão da Libertadores;

2015, 8×9 Botafogo, semifinal do estadual;

2015, 1×4 Palmeiras, semifinal da Copa do Brasil;

2017, 4×2 Flamengo, decisão da Taça Guanabara;

2020, 3×2, Flamengo, decisão da Taça Rio.

 

 

E por que o Fluminense perde tanto nos momentos mais importantes?

Outra pergunta com uma resposta simples: porque não treina.

 

Tanto não treina que possui esses números horrorosos e jogou o principal título de sua história na lata do lixo, justamente por não treinar. Reparem: a LDU não ganhou por 5×4, 6×5. Ganhou por 3×1. Ahhh, mas o juiz… Sinceramente, o Fluminense tem que ser maior que isso. Treinar e saber que na dúvida, a jogada será contra ele. E por isso tem que treinar mais. Saber da catimba e não perder a cabeça.

 

Não é à toa que o Fluminense possui o histórico que tem.

 

 

 

Gostaria de registrar o meu agradecimento ao Paulo Cezar Filho. Foi graças ao seu banco de dados que me foi possível fazer essa reflexão sobre o histórico do Fluminense nas decisões por pênaltis. Foi também o PC que me contou sobre o dia em que Pinheiro converteu 11 pênaltis, pelo Torneio Início de 1956, recorde na história do clube. Sem a ajuda do PC, eu não teria tido condições de fazer essa análise.

 

 

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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