A saída dos jogadores do Fluminense para o Flamengo em 1911 – O que aconteceu exatamente?

Terminado o Campeonato Carioca de 1911, nove jogadores do Fluminense se desligaram do clube e deram início ao Departamento de Futebol do Flamengo, clube de regatas fundado em 1895.

 

Mas o que levou exatamente a esses nove jogadores, liderados por Alberto Borgeth, a saírem do clube?

 

Vamos entender o que aconteceu.

 

 

O CAMPEONATO CARIOCA DE 1911

A edição de 1911 foi disputada por apenas 4 clubes. Na verdade, seriam 6, mas o Riachuelo encerrou suas atividades antes do seu primeiro jogo e o Botafogo abandonou o campeonato após uma pancadaria num jogo contra o America (pois é, a turma já trocava uns bons tapas há mais de 100 anos…). O Botafogo fez apenas três jogos e não enfrentou o Fluminense.

 

O Fluminense acabou conquistando o título com sobras, vencendo seus 6 jogos, com 21 gols marcados e apenas um gol contra. Campanha mais do que perfeita para não ter confusão. O problema é que teve.

 

 

O QUE ACONTECEU ENTÃO?

O Fluminense tinha um atacante chamado Alberto Borgeth, que também remava no Flamengo. Esse tipo de relação foi muito comum nos primeiros anos de existência do Fluminense durante os quais o Flamengo tinha apenas o remo.

 

Borgeth esteve à frente do ataque tricolor em 4 dos 6 jogos da campanha. Fez apenas dois gols num único jogo: Rio Cricket 0x5 Fluminense, 11/06/1911, em Icaraí, na época Icarahy. Ele passou em branco nos jogos a seguir relacionados:

 

07/05/1911 – Paysandu 0x2 Fluminense, 1ª rodada;

09/07/1911 – Fluminense 4×2 America, 3ª rodada;

03/09/1911 – Fluminense 3×1 Paysandu, 4ª rodada.

 

 

Pelos números, pode-se concluir que Borgeth não estava cumprindo seu papel de atacante: fazer gols. O Rio Cricket, clube que tomou seus dois únicos gols, existe até hoje, mas que nunca se destacou no futebol nos tempos dos amadores. Ele disputou o Campeonato Carioca até 1915. Na década de 1920, teve um breve retorno, já pelo Campeonato Fluminense, para encerrar de vez suas participações nos campeonatos principais de futebol.

 

Já que Borgeth não fazia gols, o time do Fluminense passou por uma mudança na equipe para a 5ª rodada. Borgeth saiu para a entrada de Ernesto Paranhos, que jogava de zagueiro. Ele não gostou da mudança, apesar dos números não estarem a seu favor, e começou a reclamar (pois é, a turma já reclamava de barrações há mais de 100 anos…).

 

Pergunta: a barração de Borgeth e a entrada de Paranhos deu resultado?

 

Deu sim.

 

O primeiro jogo de Paranhos foi pela quinta rodada contra o Rio Cricket, vencido pelo Fluminense por 5×0 (novamente), 10/09/1911. Paranhos marcou um gol e foi mantido no time. No seu segundo jogo, pela sexta e última rodada contra o America, vencido pelo Fluminense por 2×0, 01/10/1911, Paranhos marcou outro gol.

 

Enquanto Borgeth disputou quatro jogos, passando em branco em três, Paranhos disputou dois jogos e marcou nos dois. Pelos números, tenho para mim que a mudança foi acertada.

 

 

O QUE MOTIVOU ENTÃO A SAÍDA DE ALBERTO BORGETH E DE OUTROS 9 JOGADORES?

A divergência aconteceu quando o Ground Comitte barrou Borgeth e colocou Paranhos em seu lugar. Até a Década de 1910, a figura do treinador não existia como a conhecemos. Quem escalava o time era o Ground Comitee, formado por diretores e jogadores do clube.

 

Borgeth, que, ora, ora, fazia parte do Ground Comitte juntamente com Félix Frias, Alair Antunes e Afonso Castro, não concordou com a decisão dos seus companheiros de barrá-lo e sugeriu que os demais jogadores fossem consultados. Acredito que quando Borgeth fez essa sugestão, de alguma forma, mesmo que intuitiva, ele já sabia que poderia contar com os jogadores. Afonso Castro se posicionou veementemente contra. O clima pesou entre os dois na frente de Félix Frias e Alair Antunes. Aqui o Ground Comitee cometeu um erro que custaria muito caro ao Fluminense. Votou por escutar os jogadores e caiu na armadilha de Borgeth.

 

A consulta foi feita e a maioria dos jogadores se pronunciou pela manutenção de Borgeth no time e pela substituição de Oswaldo Gomes por Arnaldo Guimarães. O Ground Comitee tomou conhecimento da opinião dos jogadores, mas manteve as escalações de Paranhos e Osvaldo Gomes.

 

Pois é. Se era para escutar, mas não acatar, era melhor não ter escutado.

 

Agora, além de Borgeth ter ficado aborrecido com a barração, os demais jogadores também ficaram aborrecidos por sua decisão não ter sido acatada pelo Ground Comitee.

 

Abre parênteses. O Oswaldo Gomes aqui citado não é um qualquer. Ele é o jogador que mais conquistou Campeonatos Cariocas em toda a história: 1906, 1907, 1908, 1909, 1911, 1917, 1918 e 1919, oito no total, todos pelo Fluminense. Fecha parênteses.

 

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Osvaldo Gomes. Fonte: Blog do Bolt.

 

 

Após o término do campeonato, Borgeth e oito jogadores (Arnaldo de Almeida, Emmanuel Nery, Ernesto Amarante, Gustavo de Carvalho, Lawrence Andrews, Orlando Sampaio Mattos, Othon Baena de Figueiredo e Píndaro de Carvalho) deixaram o Fluminense para iniciarem o Departamento de Esportes Terrestres do Flamengo. Apenas Osvaldo Gomes e James Calvert ficaram no clube.

 

 

MINHA CONCLUSÃO

A maioria dos textos que tratam desse assunto na internet possuem uma característica em comum: são ligeirinhos, superficiais, algumas vezes cópias das cópias e, logicamente, tendem ao Flamengo.

 

E para tender, eles não analisam os números que levaram a barração de Borgeth, se a escalação de Paranhos foi acertada e se o Ground Comitee agiu corretamente.

 

Nesta visão distorcida da realidade, “o pobre Borgeth foi vítima de uma conspiração internacional e maquiavélica para barrá-lo do time principal do macabro Fluminense. Injustiçado e triste, ele foi embora do clube, liderando outros 8 jogadores, e deram início ao Departamento de Futebol do maior clube da Via-Láctea, o Flamengo.”

 

Pois é…

 

Quando se analisa os números, é visível que Borgeth não estava marcando os gols que dele se esperava. E que Paranhos marcou gols quando entrou no time. Sendo assim, a substituição foi acertada.

 

Aqui vai uma pergunta: Borgeth ficou revoltado pois ele foi barrado, mas ele teria agido da mesma forma se o barrado fosse outro jogador?

 

Meu camarada, lógico que não.

 

O problema é que ele não gostou da barração, criou uma armadilha para o Ground Comitee, que foi trouxa e caiu, e terminou levando embora 8 jogadores do clube.

 

Quando o Ground Comitte aceitou escutar os jogadores, ele não havia percebido, mas havia criado um problema gigantesco. Como já disse, se era para consultar, mas não considerar, era melhor não tê-los escutado, já que a responsabilidade pela escalação era e foi do Ground Comitee. Esse problema teria sido evitado se Félix Frias e Alair Antunes tivessem se posicionado ao lado de Afonso Castro, e não tentado contornar o confronto entre Castro e Borgeth. Se isso tivesse acontecido, possivelmente, apenas Borgeth teria saído do Fluminense, provavelmente, rumo ao Botafogo.

 

E tem mais: como estava começando do zero, o Flamengo precisava começar o campeonato na segunda divisão e ter um estádio. Adivinhem quem estendeu a mão, defendendo a participação do Flamengo na primeira divisão (acertadamente, na minha opinião, pois o seu time era o time campeão de 1911 pelo Fluminense) e ainda alugou o seu estádio por preços simbólicos para a realização dos seus jogos?

 

Exatamente. O Fluminense.

 

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Essa foto é do jogo Botafogo 3×0 Fluminense, 26/06/1910, pelo campeonato carioca de segundos quadros. Pertence ao acervo do Fluminense FC. Ernesto Paranhos é o primeiro jogador em pé, da esquerda para a direita. Os demais em pé são Coimbra e Dale; agachados, Raul Brandão, Harold Cox e Alfredo Guimarães, e sentados, Renato Miranda, Alfredo Rocha, Humberto, Gustavo de Carvalho e Loup. Fonte: Blog do Bolt. O jogador Alfredo Guimarães foi o primeiro jogador negro do Fluminense.

 

 

Agradecimentos: João Cláudio Boltshauser e Paulo Cezar Filho.

 

 

Nota: QUEM BARROU BORGETH

 

O Ground Comitee, lógico. Contudo, em 1911, o Fluminense teve o primeiro técnico da história do Rio, Charles Williams. Consta na Wikipedia que ele foi treinador de 23/04/1911 a 27/10/1912. Ou seja, nesse ano, o Fluminense, teve um técnico e um Ground Comitee. Para mim, ou existia um, ou existia o outro.

 

Não sei se sobreviveram registros que expliquem como funcionava essa relação, estranha aos olhos de hoje, mas o fato é que os dois existiram ao mesmo tempo. Acredito que o Ground Comitee tenha conversado com Charles Williams sobre a barração de Borgeth.

 

Depois de Charles Williams, o Fluminense voltou a ter apenas o Ground Comitee, pela última vez em sua história, de 03/05/1913 a 08/12/1916.

 

Charles Williams voltou a treinar o Fluminense na década de 1920, de 04/05/1924 a 19/09/1926.

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