Pedrinho: goleiro do Bangu foi vítima da Luta Armada dos Anos 70

Em 1945, Pedrinho, aos 19 anos, era um goleiro dos juvenis do Madureira, sem muitas chances no time da rua Conselheiro Galvão. Foi transferido, então, para o Marã Tênis Clube, equipe amadora de Marechal Hermes. Além da frustração de não ser profissionalizado pelo tricolor suburbano, sua vida parecia andar em círculos. O jovem passara boa parte dos últimos anos neste mesmo bairro, afinal estudara ali no antigo Internato de Educação Técnico-Profissional Visconde de Mauá.

 

Sua vida no futebol deu uma guinada em 1947, quando saiu do Marã e conseguiu uma oportunidade no Bangu, aprovado pelo técnico José Ferreira Lemos, que precisava de um substituto para o claudicante goleiro gaúcho Rossari. O início no alvirrubro também não foi nada bom. Logo em sua segunda partida, na Gávea, contra o Flamengo, levou oito gols de um poderoso ataque rubro-negro que tinha Pirilo, Perácio e Jair Rosa Pinto, e foi humilhado pelo cronista Fausto de Almeida, um banguense ferrenho que escrevia para o jornal A Manhã:

 

“O goleiro engoliu cada frango, desses de arrepiar. Tendo deixado entrar no arco que guarnecia, nada menos de três arremessos perfeitamente defensáveis. Pedrinho revelou-se incapaz de pertencer a um quadro de profissionais. E além de seus seguidos erros, ainda bancava o zangado, procurando culpar seus companheiros. Se ele tiver mais noção de responsabilidade deve ir procurar outra vida, porque para futebol ele não dá” (A Manhã, 12/10/1947, p. 13).

 

 

Desta forma, falhando muito, Pedrinho nunca foi titular absoluto no Bangu, mas permaneceu no clube por cinco anos: fez 32 jogos entre 1947 e 1951 e sofreu 58 gols, sendo vice-campeão do Torneio Municipal e do Torneio Início, em 1951.

 

Quando saiu do Bangu, Pedrinho foi jogar pelo time amador do Torres Homem Futebol Clube e, em 1956, enfim, encerrou a carreira no clube do bairro de sua juventude: o União de Marechal Hermes.

 

Como o futebol não permitiu que acumulasse riquezas, Pedrinho lançou-se no mercado de trabalho, fez concurso público e conseguiu uma vaga na Caixa Econômica Federal. Era, agora, o tesoureiro Pedro Américo da Motta Garcia. Mas, em abril de 1970, um assalto à agência de Anchieta, onde trabalhava, mudou o destino de sua vida:

 

“Revidando à bala a investida de três assaltantes, o tesoureiro Pedro Américo da Motta Garcia, da agência Anchieta da Caixa Econômica, evitou, com seu gesto de coragem, que os marginais roubassem ontem, cerca de 8 milhões antigos, que estavam no cofre-forte. Os bandidos, dois dos quais falsamente fardados, fugiram no táxi GB 5-05-35, um Fusca, que os aguardava a uns 20 metros da porta da agência, situada na Avenida Nazaré” (Diário de Notícias, 11/4/1970, p. 12).

 

 

– Nesta hora me deu um estalo: corri para o guichê, apanhei o revólver e, de frente para um dos bandidos, atirei e me escondi. Um deles, de boina preta, atirou contra mim e eu disparei mais duas vezes. Todos os quatro fugiram e fui para fora da agência, de onde ainda disparei contra o táxi em que fugiram – contou orgulhoso o ex-goleiro Pedrinho à reportagem do Jornal do Brasil (11/4/1970, p. 18).

 

 

Os bandidos eram, na verdade, subversivos do Partido Operário RevolucionárioPedrinho goleiro do Bangu foi vítima da Luta Armada dos Anos 70-3 Trotskista, um braço armado da esquerda que lutava contra a ditadura militar, e precisavam do dinheiro do roubo para reorganizar o partido. Entre os militantes havia um médico (Primo Alfredo Brandimiller), uma estudante (Miriam Gomes Burges), um ex-sacerdote (Alípio Cristiano de Freitas) e um outro (Menandro Sandes Lima) tinha ocupação ignorada. Todos foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional, após um inquérito do DOPS (o Departamento de Ordem Política e Social).

 

Em maio de 1970, o funcionário Pedrinho foi promovido à gerente da Caixa Econômica pelo seu ato de bravura, recebendo a notícia pessoalmente das mãos do Ministro da Fazenda, Delfim Neto.

 

Tudo corria bem na vida do ex-goleiro. Ele só não espera que os terroristas tinham meios para se vingar. Na manhã de 22 de fevereiro de 1973, quando saía de casa, na Vila Valqueire, para ir trabalhar na Caixa Econômica, Pedrinho foi surpreendido por um homem branco. Sem dizer palavras, de arma em punho, o desconhecido fez três disparos que o atingiram mortalmente. Ouvindo os tiros, a esposa de Pedrinho, Nair Fernandes Garcia, saiu de casa e viu o homem dirigindo o carro do marido em alta velocidade, ainda empunhando a arma do homicídio.

 

“Para a polícia, existem suspeitas de que o ex-jogador tenha sido executado por vingança, pois, há três anos, conseguiu evitar um assalto. Possivelmente, um dos quadrilheiros que saiu ferido no entrevero quis ir à forra e, num levantamento feito, descobrindo os hábitos de Pedrinho, ficou de tocaia à porta de sua casa” (Luta Democrática, 23/2/1973, p. 2).

 

 

Pedrinho, de 47 anos, chegou sem vida ao Hospital Carlos Chagas, “com ferimentos penetrantes do tórax e abdômen, com lesão de pulmão esquerdo; fígado e estômago com hemorragia interna e anemia aguda consecutiva”. Para desespero de seus dois filhos menores, o pai-herói que eles sequer viram atuar como goleiro do Bangu, estava morto.

 

À missa de sétimo dia na Igreja de Nossa Senhora do Rosário, na Rua Uruguaiana, compareceram vários funcionários da Caixa Econômica Federal e, provavelmente, o relações públicas do Bangu, “seu” Vivi.

 

A partir de então, o nome de Pedro Américo passou a ser lembrado todo ano pelo I Exército, que mandava rezar missas “em homenagem à memória das vítimas do terrorismo”.

 

Entretanto, jamais se descobriu quem foi o criminoso que tirou a vida do goleiro Pedrinho…

 

Pedrinho goleiro do Bangu foi vítima da Luta Armada dos Anos 70-2

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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