Quando o movimento tenentista interrompeu o Campeonato Carioca de 1924

Domingo, 6 de julho de 1924. A população carioca lê as notícias dos jornais: a Capital Federal, os estados do Rio de Janeiro e de São Paulo estão em estado de sítio, decretado pelo presidente Arthur Bernardes. O motivo era o início de uma revolta militar na capital paulista.

 

“Grande parte da guarnição federal sublevou-se, prendendo o comandante da região, general Abílio de Noronha, e atacando o palácio presidencial, onde foi oferecida enérgica resistência por numerosa força de polícia, que se conservou fiel ao governo. O movimento revolucionário é chefiado pelo general reformado Isidoro Dias Lopes”.

 

 

O objetivo da chamada “Revolta Tenentista”, deflagrada exatamente no aniversário de dois anos da revolta dos 18 do Forte de Copacabana, era, primeiramente depor o governador de São Paulo, Carlos de Campos. Depois, rumar até o Rio, e tomar o poder à força, forçando o presidente Arthur Bernardes a renunciar.

 

Curiosamente, os cariocas não pareciam se abalar com a guerra que se iniciava pelas ruas de São Paulo:

 

“Aqui na capital do país, apesar de conhecido desde cedo o levante, a notícia não alterou em cousa alguma o movimento da cidade. A Avenida regurgitou de passeantes perfeitamente tranquilos e as casas de diversões funcionaram com muita animação” – informou o Jornal do Brasil.

 

Longe da revolta paulista, em Bangu, a rotina do bairro operário seguia normal. Naquele domingo, houve sarau dançante na sede da sociedade recreativa Prazer das Morenas, das 18 às 23 horas. E, pelo Campeonato Carioca, os três jogos programados foram realizados conforme previa a tabela: Fluminense x América, nas Laranjeiras; São Cristóvão x Botafogo, na Figueira de Melo; e Sport Club Brasil x Bangu, na Rua Paysandu.

 

Era a última rodada do 1º turno. O Bangu era o penúltimo colocado com 4 pontos em seis jogos, enquanto o Sport Club Brasil (time extinto da Praia Vermelha) tinha perdido todos os seis confrontos que fizera.

 

Daí o desinteresse do público em prestigiar um encontro desse nível, até porque a partida foi realizada no campo “neutro” da Rua Paysandu, local onde o Flamengo mandava seus jogos. Apenas 486 pessoas pagaram ingresso naquela tarde de domingo.

 

Quem ficou em casa – e naquela época sequer havia como acompanhar o andamento dos jogos pelo rádio -, perdeu uma verdadeira festa de gols: ao todo foram 12 – um recorde naquele ano.

 

O S. C. Brasil, além de ser fraco, estava desfalcado de cinco titulares (Porto, Juca, Bolívar, Braga e Novaes) – todos eles, naquele momento de crise institucional, impedidos de sair dos quartéis em que serviam.

 

No 1º tempo, o Bangu fez tudo o que queria e foi marcando seus gols tranquilamente. Logo no comecinho, Anchyses deu um bom passe e Pastor fez 1 a 0. Dez minutos depois, Anchyses chutou forte, de longe, e ampliou para 2 a 0.

 

O centroavante Pastor continuou se aproveitando da fragilidade do Brasil: ele recebeu um passe de Antenor e ampliou para 3 a 0. Cinco minutos depois, foi Frederico quem deu a assistência para Pastor fazer 4 a 0. No finalzinho, Fragoso diminuiu para o time da Praia Vermelha. A goleada parcial de 4 a 1 era a garantia de uma vitória sossegada.

 

No 2º tempo, o Brasil começou a incomodar e cresceu em campo. Maciel, logo de saída, fez o segundo gol. Mas, a tarde era mesma do implacável Pastor, que anotou o seu quarto gol na partida: 5 a 2.

 

Pastor atingiria um recorde histórico de cinco gols no mesmo jogo ao marcar o sexto tento do Bangu: 6 a 2.

 

Fragoso driblou toda a defesa banguense e diminuiu, mas o Bangu reagiu e Antenor fez 7 a 3. O Brasil continuou acreditando em um possível empate e Maciel fez o quarto gol, enquanto Fragoso anotava o quinto.

 

A vitória já era esperada, afinal o Brasil era um time que não incomodava ninguém, mas o placar de 7 a 5 surpreendeu muita gente. Américo Pastor, ao marcar cinco gols num mesmo jogo, tinha entrado para um seleto grupo de recordistas alvirrubros.

 

Curiosidade quase incrível. A grande quantidade de gols prejudicou o trabalho do cronista do jornal O Paiz, que errou nas contas. Enquanto todos os outros diários informavam corretamente a vitória banguense por 7 a 5, a página de esportes de O Paiz dava um 6 a 5 como resultado…

 

Depois deste jogo, o Campeonato Carioca foi interrompido por um mês. Havia o risco de o movimento tenentista se espalhar para outros pontos do país. Só quando a revolta foi debelada pelas tropas do governo federal, no final do mês de julho, ao custo de 1.500 prédios bombardeados, 5 mil feridos e aproximadamente 500 mortos na Paulicéia, o futebol foi retomado na Capital da República.

 

Quando o movimento tenentista interrompeu o Campeonato-2

 

Campeonato Carioca 1924

Quando o movimento tenentista interrompeu o Campeonato-3

 

Tabela do Campeonato Carioca 1924 (link)

 

Nota: em 1924, o Rio de Janeiro teve dois campeonatos de futebol. O campeonato organizado pela Liga Metropolitana de Desportos Terrestres (LMDT), com a participação do Vasco e de equipes de menor expressão, e o campeonato da Associação Metropolitana de Esportes Athléticos (AMEA), com a participação de Bangu, America, Botafogo, Flamengo, Fluminense e São Cristóvão. Enquanto o campeonato da AMEA foi paralisado por causa da Revolta Tenentista de 1924, o campeonato da LMDT seguiu sendo disputado.

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s