Adherbal, o Major-Aviador do Bangu

Ele ficou mais conhecido pelas suas acrobacias aéreas do que com a bola nos pés. A incrível história de vida do baiano Adherbal Costa Oliveira mistura militarismo, Getúlio Vargas e a paixão pela aviação.

 

Nascido em Salvador (BA), em 1899, filho de um Capitão-Médico do Exército, a trajetória de Adherbal esteve intimamente ligada à caserna. Em 1913, foi matriculado no Colégio Militar de Barbacena (MG). Lá, além de aulas de álgebra, desenho, alemão e francês, o jovem Adherbal também tinha classes de equitação, esgrima, tiro ao alvo, ginástica e infantaria. Ou seja, tornara-se um atleta perfeito, expert em várias modalidades.

 

Em 1917, chegou ao Rio de Janeiro, ingressando na Escola Militar de Realengo. Foi aí que começou a se interessar pelo clube do bairro vizinho, o Bangu Athletic Club, e passou a jogar futebol, aproveitando seu porte atlético e grande capacidade física para ser meio-campo do time alvirrubro.

 

No Bangu, Adherbal disputou apenas o Campeonato Carioca de 1919. Fez 13 jogos como meio-campo, não marcou gols e, no início do ano seguinte, enamorado que estava pela jovem Irene Lopes, casou-se e prometeu a ela “tornar-se um homem sério e não mais jogar futebol”.

 

Sua ascensão nos quadros militares foi rápida: 2º tenente, 1º tenente, capitão. Logo, era considerado o melhor aviador que havia nos quadros do Exército brasileiro (lembremos que a Força Aérea Brasileira só seria criada em 1941).

 

“Havia no Campo dos Afonsos, um piloto jovem, alegre e bravo. Sua blusa de couro castanho, ampliando-lhe as espáduas largas, davam-lhe a aparência de um atleta. Quando havia qualquer dúvida sobre a segurança de um motor, era sempre ele que se oferecia primeiro para voar no aparelho suspeito. Destemido e confiante nos seus nervos, comunicava essa confiança e esse destemor aos que o rodeavam” – lembrou o Capitão Walter Prestes, ao jornal O Radical (28/6/1939, p. 3).

 

 

Em 1931, eis que o presidente Getúlio Vargas faz uma visita ao Campo dos Afonsos. Dispunha-se a voar num avião modelo M-5, construído pelo Major Antônio Guedes Muniz. Ninguém queria assumir a responsabilidade de levar Getúlio de carona numa geringonça que poderia muito bem cair e vitimar o presidente da República. Só um homem tinha coragem suficiente: o ex-jogador do Bangu, Adherbal.

 

““Se fui audacioso como engenheiro, não tive, absolutamente, como piloto, a coragem de pilotar [para] Sua Excelência. Ao capitão Adherbal Costa Oliveira coube essa tarefa delicada, acarretando nesse caso, com toda responsabilidade de transportar o primeiro magistrado do Brasil e, ao mesmo tempo, fazer ressaltar, se possível, as qualidades do material brasileiro que pilotava” – contou o Major Antônio Guedes Muniz ao jornal A Esquerda (4/9/1931, p. 3).

 

 

Curiosamente, Adherbal não gostava de Getúlio Vargas. Em julho de 1932, quando eclodiu a Revolução Constitucionalista em São Paulo, movimento para depor o governo de Vargas e convocar uma Assembleia Nacional Constituinte, Adherbal resolveu lutar ao lado dos paulistas.

 

Em agosto de 1932, fugiu para São Paulo a bordo de um avião Nieuport-Delage, incorporando o bólido ao chamado “Grupo de Aviação de Caça Constitucionalista”.

 

Adherbal viveu seu dia de glória em setembro daquele ano, quando abateu um avião Wacco, do exército governista, nos céus de Mogi Mirim (SP).

 

Apesar da bravura de Adherbal, os revoltosos paulistas perderam a guerra contra o governo de Getúlio Vargas em outubro de 1932. Agora, o capitão era tido com um desertor do Exército e, para evitar a prisão, rumou para o exílio na Argentina, junto com outros combatentes.

 

Em janeiro de 1934, no entanto, foi beneficiado por um decreto de anistia e voltou ao Exército, sendo promovido a Major. Retornou triunfante ao Brasil e não escondeu seu desejo de retomar os voos.

 

No dia 20 de junho de 1934, ele decolou do Campo de Marte, em São Paulo, com um avião Wacco C-32 do correio aéreo-militar, que levava as malas postais de São Paulo para Cuiabá. Ao seu lado, viajava o Tenente-Coronel Silvino Bezerra Cavalcanti.

 

Nas proximidades de Barueri, com uma cerração cada vez mais forte, os pilotos perderam o rumo e viram-se na contingência de buscar um lugar onde aterrissar. Mas a região era toda acidentada, com morros e grotões profundos.

 

O Major Adherbal baixou muito o voo, batendo com o aparelho de encontro a uma árvore. O “Wacco” capotou, indo espatifar-se numa cerca. Duas senhoras residentes próximo ao local do desastre foram as primeiras que correram em socorro dos militares. Mas, o Tenente-Coronel Bezerra Cavalcanti morrera.

 

Adherbal quebrara as duas pernas e os vidros frontais do avião entraram nos seus olhos, causando sérias lesões no seu globo ocular. Ficou horas esperando o resgate, até que foi levado para o Hospital da 2ª Região Militar, onde ficou internado por um bom tempo.

 

Ao saber da notícia, o General Eurico Gaspar Dutra (futuro presidente do Brasil) e chefe da Aviação Militar, ficou furioso:

 

“O correio aéreo-militar, embora destinado, na aparência, ao transporte das malas postais unicamente, tem como principal objetivo o treinamento dos aviadores do nosso Exército, não se justificando, pois, de maneira nenhuma o levantamento de voos em condições absolutamente desfavoráveis. São arroubos de entusiasmo, que muito dizem da bravura dos nossas ases, mas em tudo prejudiciais à família e à aviação brasileira”, disse o General ao Diário da Noite (22/6/1934, p. 8).

 

 

Com o tempo, Adhemar recuperou o movimento das pernas, mas perdeu totalmente a visão:

 

“Era um Adherbal completamente transfigurado. Não tinha mais aquelas espáduas de atleta. Não caminhava mais com a vivacidade daquele jovem piloto. Tinha deixado de ser o piloto alegre e valoroso de outros tempos. Inutilizado para o serviço, era apenas um oficial reformado a arrastar-se na dor. Ao invés dos olhos de águia, ele trazia uns óculos negros, que se afundavam dolorosamente no coração dos seus companheiros” (O Radical, 28/6/1939, p. 3).

 

 

Adherbal passou a consultar todos os especialistas. Os médicos diziam que seu caso era perdido. Mas ele não desistia: “Enquanto tiver forças, lutarei. Hei de voltar aos ares. Hei de pilotar novamente o meu aparelho. Pois se isto é a própria razão de ser de minha vida!” – declarou ao jornal A Noite.

 

A esperança de cura veio em maio de 1937. O Ministério da Guerra autorizou que o major-aviador reformado viajasse para a Alemanha nazista, acompanhado de um capitão-médico, para se submeter a uma intervenção cirúrgica com os melhores médicos do III Reich.

 

Ele ainda não tinha ido para a Alemanha quando, em 14 de setembro de 1937, regressando num avião “Wacco” de São Paulo rumo ao Rio, pilotado pelo Tenente Aramis Mendonça dos Santos, encontrou novamente problemas.

 

Ao passar pela localidade fluminense de Passa Três, o avião Wacco fez três evoluções. Roncava, porém, fortemente, como que falhando. O Tenente Aramis susteve por algum tempo o avião no ar, com o motor sempre a falhar. Cessada a força de sustentação, o aparelho avançou de bico e achatou-se no solo num sítio do distrito de Capelinha, município de Barra Mansa (RJ).

 

Pela segunda vez, um avião trouxe-o violentamente à terra. E o major cego, angustiado, sem ver, mas sentindo a agonia da queda, encerrou dolorosamente a vida que tanto quisera conservar. Tanto Adherbal, quando o cabo José Gomes Pereira, seu bagageiro, faleceram instantaneamente.

 

O piloto Aramis ainda teve forças para dizer a um trabalhador que tentou prestar socorro: “Não. Não estou morto. Cortem estas correias. Estou vivo”, para sucumbir minutos depois.

 

Foi o último voo de Adherbal, a “Águia Cega”, que, aos 38 anos, deixou uma viúva e uma filha de 14 anos…

 

Adherbal-o-maior-aviador-do-bangu-1Adherbal-o-maior-aviador-do-bangu-3

 

 

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out /  Change )

Google photo

You are commenting using your Google account. Log Out /  Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out /  Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out /  Change )

Connecting to %s