Os crimes de “Vermelho”: o mais polêmico jogador dos anos 50

Do estupro coletivo de uma deficiente mental a morte no fundo do poço, o atacante viveu e morreu sempre atrelado às páginas policiais

Nascido em Campos dos Goytacazes, a 6 de setembro de 1931, o jovem Hélio Fraga de Oliveira era um dos destaques do time do Americano no final da década de 40. Sua reputação de craque promissor fez com que o Bangu se interessasse em contratar o atacante. Hélio Fraga era descendente direto de escravos, que trabalharam nas plantações de cana-de-açúcar na cidade do Norte Fluminense. Seu tom de pele era tão escuro que, a despeito do racismo que imperava naquela época, aceitou ser apelidado de “Vermelho”.

O garoto Vermelho, com 18 anos, estreou entre os profissionais do Bangu num amistoso contra o Flamengo, em fevereiro de 1950, em Petrópolis. O Bangu venceu por 3 a 1, mas Vermelho não brilhou tanto assim, sendo substituído por Calixto no 2º tempo. Suas primeiras grandes chances apareceram no Torneio Rio-São Paulo de 1951, pelas mãos do técnico uruguaio Ondino Viera.

Mesmo sem marcar gols, cativou tanto o treinador que ele resolveu levar o garoto para formar no Combinado Bangu-São Paulo, um time poderosíssimo que excursionou pela Europa em abril de 1951. Pelo Combinado, fez quatro jogos e nenhum gol, mas ao desembarcar no aeroporto do Galeão foi considerado o “grande sucesso do time”, mesmo sendo reserva. Em Paris, principalmente, foi a grande atração. As francesinhas, então, adoravam quando Vermelho estava jogando. Liso, com o corpo a balançar sempre como a lembrar o ritmo quente do samba brasileiro, Vermelho atraía. O Diário Carioca (3/5/1951, p. 10) explicou:

“A sensação do Bangu, na palavra de todos os jogadores, foi o atacante Vermelho. Passou para trás a turma na roda das garotas. Beijou muita loura.

– Beijou mesmo, Vermelho?

E o craque colored:

– E não era para beijar? Elas estavam dando sopa…”

Depois do “bem-sucedido” giro pela Europa, Vermelho começou a se firmar no time titular do Bangu e passou a marcar gols. Mas, ao mesmo tempo em que sua carreira decolava, ele ia se envolvendo em confusões.

Numa sexta-feira, 16 de maio de 1951, Vermelho estava numa festa na Estrada do Retiro, em Bangu.

“Embriagado, agrediu um dos diretores do Ceres F. C., causando-lhe várias lesões corporais, perfeitamente caracterizadas no laudo do exame de corpo de delito. Foi condenado a três meses de prisão, mas foi beneficiado pelo sursis, durante dois anos, por ser infrator primário” (Diário Carioca, 26/6/1953, p. 10).

Sem se importar com os estilhaços de garrafas, com a agressão ao dirigente Osvaldo da Silva e com o fato de ter terminado com a festa, Vermelho se concentrou no futebol e sagrou-se vice-campeão do Torneio Municipal e do Torneio Início de 1951 e teve participação decisiva na reta final do Campeonato Carioca daquele ano, substituindo o titular Menezes.

Na última rodada, o Bangu precisava vencer o Fluminense para igualar o rival em número de pontos na liderança. O empate dava o título para os tricolores. O Maracanã recebeu mais de 92 mil pessoas para presenciar este duelo histórico. O 1º tempo terminou 0 a 0. Mas, logo no início do 2º tempo, eis que o craque Zizinho esticou uma bola na frente para o jovem atacante Vermelho. Ele chegou antes do beque Pinheiro e chutou na saída de Castilho: Bangu 1 a 0!

“Quando Zizinho me passou a bola dentro da área tive a certeza de que a mandaria às redes de Castilho. Estourei de contente. Para mim, o jogo deveria terminar naquela hora. Eu sempre acreditei na vitória do Bangu” – disse, eufórico, à Revista da Semana (19/1/1952, p. 54).

A vitória forçou uma “melhor-de-três” pelo título entre os dois times. O Bangu não teve sorte e ficou com o vice-campeonato carioca de 1951, mas Vermelho se tornou definitivamente um dos nomes da linha de frente do time. Em 1952, desbancou Moacir Bueno e assegurou a titularidade. Não era um goleador nato, mas era rápido e facilitava o trabalho dos demais atacantes. Em 62 jogos pelo Bangu, fez 18 gols, cinco deles diante do Canto do Rio, sua “vítima” predileta.

Vermelho não sabia, mas em janeiro de 1953 faria seu último jogo pelo Bangu: uma goleada de 5 a 3 sobre o Atlético Mineiro, em Belo Horizonte. Jogou mal e foi substituído por Ademir.

O jogador caiu em desgraça logo em seguida. No domingo, 22 de fevereiro de 1953, estava bebendo com quatro amigos no Bar Brotinho, em Campo Grande. Já no final da tarde, passou por ali a jovem Ivete de Oliveira Santos, de 20 anos, que sofria das “faculdades mentais”.

“Ao que parece, [Ivete] simpatizou e iniciou um flirt com um deles, pois momentos depois estava sentada à mesa, e, enquanto bebia, conversava animadamente. Foi então que, vendo eles a facilidade com que Ivete se dava, a convidaram a dar um passeio de carro. Débil mental e embriagada, a pequena deve ter cedido com a maior facilidade. Um deles era motorista e estava com o carro bem à mão, o que muito facilitava a trama dos aproveitadores. Daí ao fato passado, foi simples. Os repelentes indivíduos arrastaram-na para a Barra da Tijuca e lá praticaram os mais abomináveis atos, aproveitando-se dela” – registrou o jornal A Manhã (24/2/1953, p. 3).

Ivete foi encontrada somente na segunda-feira, vagando por uma estrada de Jacarepaguá. Vermelho – o mais conhecido dos cinco homens – foi à redação da Gazeta de Notícias (1/3/1953, p. 11) se defender das acusações de estupro de vulnerável.

“Jamais pensei em abusar da honra alheia. As próprias declarações dos implicados e da vítima me absolvem. O meu único crime foi ter aceito o convite para o passeio. E se o aceitei foi porque não conhecia, absolutamente, a Barra da Tijuca” – tentou se justificar o jogador banguense.

Com o passar dos dias, a situação do jogador foi se complicando, ainda mais porque Ivete era filha de um subtenente reformado do Exército. Para piorar, o delegado Igiberto Lacerda encontrou no interior do carro um botão do vestido de Ivete e fragmentos de suas vestes, o que viria a provar que ela foi forçada a praticar “atos inconfessáveis com os homens que lotavam o carro” (Última Hora, 24/2/1953, p. 2).

Como já havia também quem estivesse disposto a linchar Vermelho pelas ruas de Bangu, o clube decidiu urgentemente negociar o “famoso morador da Rua Francisco Real” com o Corinthians pelo preço de 500 mil cruzeiros. “Gostei daqui. O ambiente é bom, há muita camaradagem e tenho a certeza de que confirmarei. Vim para vencer” – declarou à publicação paulista Mundo Esportivo (9/4/1953, p. 12).

Estreou pelo alvinegro paulista num amistoso contra o XV de Piracicaba, em 29 de março de 1953. Atuou em 27 jogos e fez 7 gols pelo “Timão” até que, no dia 28 de dezembro de 1953, o juiz Hamilton Morais e Barros, da 15ª Vara Criminal, expediu um mandado de prisão preventiva contra o jogador.

O Corinthians rescindiu seu contrato e, antes de ser preso, Vermelho ainda jogou todo o primeiro semestre de 1954 pelo São Bento, do interior paulista. Enfim, em 19 de agosto de 1954 foi entregue à Justiça do Rio de Janeiro para cumprir seis meses de prisão.

Seis meses passaram rápido e logo a Tribuna da Imprensa (8/2/1955, p. 2) anunciava que “Vermelho vai desfalcar o time da Penitenciária. Os quadros de basquete, vôlei e futebol da Penitenciária Central do Distrito Federal irão ficar, a partir do dia 18, desfalcados em suas linhas”.

Quando saiu da detenção, em fevereiro de 1955, ainda conseguiu assinar um novo contrato, agora com o Flamengo, clube pelo qual fez um único jogo amistoso, contra o Goytacaz, em 20 de março de 1955. Logo, num domingo, 19 de junho de 1955, envolveu-se em nova confusão, desta vez com o massagista rubro-negro Isaías de Oliveira.

“Vermelho foi a uma festa na Rua Marquês de São Vicente [na Gávea]. Alta madrugada, Isaías saiu para levar em casa uma das convidadas. Mas, o jogador os seguiu à distância. Até que, pouco adiante do Quartel do 8º Grupo Móvel de Artilharia de Costa, na avenida Bartolomeu Mitre, Vermelho cismou de acompanhar a moça também. Acabou se desentendendo e entrando em luta corporal com o massagista. Presos por componentes da guarda do quartel, foram levados para o 1º Distrito. Autuado por luta corporal, Vermelho ia sendo conduzido para o xadrez, com o companheiro, quando saiu como um louco para a rua. Perseguido, foi recapturado quando já tomava um bonde, para fugir. Mas não teve outra alternativa: entregou-se, voltando para a delegacia. Já às primeiras horas da manhã, pagou fiança, retirando-se” (Correio da Manhã, 21/6/1955, p. 8).

Com o contrato rescindido também pelo Flamengo e a má fama o acompanhando, Vermelho mudou-se para Salvador, onde o Vitória o abrigou em sua equipe. Mas, ele era incorrigível e, logo, em 22 de setembro de 1955, foi preso novamente. Ele e o seu companheiro de time, Jaiminho, estavam embriagados, promovendo desordens numa casa do bairro do Rio Vermelho.

Pelo Vitória, Vermelho marcou quatro gols e foi campeão baiano em 1955 (juntamente com os ex-banguenses Pinguela e Elói). Mas, em julho de 1956, quando o Bangu foi a Salvador enfrentar o Vitória amistosamente, Vermelho já não estava mais nas cogitações do rubro-negro baiano.

Em 1957, mudou-se outra vez. Foi para Pernambuco, tentava cavar uma vaga em algum clube de Recife. Entretanto, no dia 17 de março, Vermelho foi encontrado morto, estatelado no fundo de um poço, em Olinda, em condições nunca explicadas.

“Há cerca de três dias, começou a causar espécie a ausência de Vermelho das rodas esportivas que habitualmente frequentava. Ontem, finalmente seu corpo foi encontrado no fundo de um poço d´água, na cidade vizinha de Olinda, já sem vida. Presume-se que o craque caiu no mesmo por se encontrar embriagado, já que era dado ao uso de bebidas alcóolicas” (Diário Carioca, 19/3/1957, p. 9).

Graças a um rateio feito por alguns jogadores de futebol de Recife, Vermelho foi enterrado no cemitério de Santo Amaro. Tinha apenas 25 anos. O fundo do poço, literalmente, foi o ponto final da vida atribulada de um atleta bastante conhecido, tanto das páginas esportivas quanto das páginas policiais…

Hélio Fraga de Oliveira, o Vermelho
Vermelho, Joel e Zizinho.
Ao fundo: Nivio e Vermelho. Primeiro plano: Décio Esteves e Zizinho.
Da esquerda para a direita: Djalma, Vermelho, Zizinho, Moacir Bueno e Nivio.

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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