Benedicto Dantas: o primeiro banguense a jogar na Seleção Brasileira

Imagine estrear numa partida decisiva para o seu time, tendo apenas 17 anos, marcar um gol e ajudar na vitória que livraria sua equipe do rebaixamento. Pois foi o que aconteceu com o jovem Benedicto Dantas. Ainda menor de idade, ele marcou um gol na goleada do Bangu sobre o Botafogo por 4 a 2, no extinto campo da Rua Ferrer, pelo Campeonato Carioca de 1915, que livrou o time alvirrubro de cair para a 2ª Divisão. Estava nascendo naquele 17 de outubro de 1915 um novo craque no bairro operário.

No ano seguinte, confirmado como titular, o magrelo Benedicto, de cabelos bem negros, voltou a ser peça-chave na equipe proletária. Durante o Campeonato Carioca de 1916, o atacante marcou 5 gols, dois deles na goleada de 4 a 1 sobre o Fluminense, na Rua Ferrer, e ajudou o Bangu a sagrar-se vice-campeão.

Desta vez, não foram só os torcedores banguenses que reconheceram seu valor. A própria Confederação Brasileira de Desportos viu em Benedicto um craque e o convocou para um amistoso da Seleção Brasileira em janeiro de 1917.

A convite do Botafogo, uma delegação de futebol do Uruguai veio jogar alguns amistosos no Rio de Janeiro. A chegada dos jogadores uruguaios ao cais do porto, no dia 29 de dezembro, foi uma verdadeira festa, que contou com a presença de representantes de todos os clubes filiados à Liga Metropolitana.

Enfim, no dia 7 de janeiro de 1917, houve o confronto em General Severiano, entre a Seleção Brasileira e o Dublin, do Uruguai, com dois jogadores que tinham sido campeões sul-americanos com a “Celeste” em 1916.

Para este amistoso internacional, o Brasil formou com Ferreira (do América/RJ), Nery (do Flamengo) e Chico Netto (do Fluminense); Ítalo (da A. A. Palmeiras/SP), Rubens Salles (do Paulistano) e Lagreca (do São Bento/SP); Benedicto (do Bangu), Sidney (do Flamengo), Nazareth (da A. A. Palmeiras/SP), Aloísio e Menezes (ambos do Botafogo).

O amistoso, assistido por 7 mil pessoas, terminou 0 a 0, mas Benedicto fizera história: foi o primeiro jogador do Bangu a vestir a camisa (até então branca) da Seleção Brasileira.

“A colocação de Benedicto na extrema foi desastrosa, porque já havendo na ala esquerda um jogador que estava fora de posição, o resultado da combinação de dois jogadores que não estavam habituados com os seus novos lugares, teria fatalmente de ser o que foi: Sidney e Benedicto jogaram durante 90 minutos na mesma ala, sem terem conseguido nem uma só vez fazer durante todo esse tempo um passe bem feito” (O Paiz, 8/1/1917, p. 6).

No Campeonato Carioca de 1917 fez 8 gols, três deles na partida contra o Carioca F.C., na Rua Ferrer, quando o Bangu venceu por 4 a 1.

Tamanho sucesso nos gramados fez com que Benedicto fosse assediado por outros clubes e, em março de 1918, ele tinha duas inscrições: pelo Bangu e pelo América. A Liga mandou que ele se decidisse e o almoxarife da Fábrica Bangu, morador da Rua Ferrer nº 89, preferiu jogar o Campeonato Carioca daquele ano pelo time rubro, abandonando o clube que o revelou.

A camisa do América não lhe trouxe sorte. Logo no dia 21 de julho de 1918, no empate em 2 a 2, na rua Campos Sales, com o Andarahy, acertaram-lhe o joelho sem dó. Dois dias depois, sofreu um acidente quando andava de bicicleta, piorando ainda mais a situação do joelho lesionado.

Em 1919, o joelho já não era o problema. Benedicto passou a sofrer de um mal muito comum naquele início de século XX. Uma doença que era tida como maldita e que muitos sequer gostavam de pronunciar o nome: tuberculose.Num mundo ainda sem antibióticos, a cura para a chamada “peste branca” era se refugiar em algum sanatório em uma cidade de altitude elevada. O ar seco e frio faria bem aos pulmões do doente. Benedicto voltou ao Rio em agosto de 1919. Estaria curado?

“Completamente restabelecido da enfermidade que o privou de tomar parte em jogos de football, acaba de reiniciar os seus treinos o ágil e simpático forward Benedicto Dantas, do América” (A Época, 21/8/1919, p. 7).

Mas, o bacilo de Koch ainda estava em seu corpo e, em 1920, Benedicto voltou a se internar num sanatório. “Acha-se bastante enfermo o excelente player Benedicto Dantas, pertencente ao América” (O Imparcial, 6/2/1920, p. 8).

Era outra temporada perdida. Sem ter feito muitas partidas pelo América, no início de 1921, o jogador voltou ao Bangu, querendo retomar a carreira. Já não trabalhava mais na Fábrica. Agora era um comerciante, empregado no armazém de secos e molhados de Franco & Irmão, na Avenida Costa Pereira nº 1, em Bangu.

Em 6 de março de 1921, no campo da Rua Dias da Cruz, no Méier, fez sua reestreia. Destreinado, atuando na ponta-direita, Benedicto jogou mal e o Bangu perdeu para o Palmeiras/RJ por 4 a 2. Sentiu cansaço, os pulmões não respondiam aos esforços. Seria sua última partida.

Um mês depois, Benedicto estava em Barra do Piraí, descansando, respirando o ar puro do interior. Na noite de sexta-feira, 8 de abril de 1921, decidiu regressar ao Rio. O trem que servia era o que vinha de Minas Gerais, trazendo carregamento de leite, cortando várias estações da Serra do Mar, até chegar à Praia Formosa, no Rio de Janeiro.

“Procedente da estação da Barra do Piraí, descia, com destino a Alfredo Maia, na linha auxiliar, o trem C.L. 2. Este comboio que é formado de seis ou mais vagões de mercadorias, e de dois carros de passageiros, um de primeiro e outro de segunda classes, como acontece sempre, vinha repleto. É considerado de pequeno percurso e, por isso, por ser mais barato o preço da passagem, muitos são os seus passageiros diários. Geralmente, é na Barra do Piraí, que ele se enche. Nesta estação é que os viajantes fazem a baldeação, pois, preferem-no, embora chegando ao Rio mais tarde, devido à economia na passagem. O C.L. 2, mais conhecido por trem de leite, é o que conduz para esta capital o leite procedente de localidades mineiras e fluminenses. Traz também mercadorias” (Jornal do Brasil, 9/4/1921, p. 8).

Benedicto embarcou em Barra do Piraí às 19 horas de uma noite escura e tempestuosa. Era para chegar à estação de Alfredo Maia (na Praia Formosa) às 21h50. Porém, às 19h40, depois de passar acelerado pela estação de Scheid (em Paulo de Frontin), ocorreu o inesperado:

“Na altura do quilômetro 69, a velha e fraca locomotiva perdeu de todo a ação dos estragados freios, e sem governo entrou numa carreira louca, apavorante, no meio de agoniados gritos de socorro. Numa curva mais forte, a pesada composição saltou dos trilhos, tombando os carros uns sobre outros, num entrechocar de ferros que se partiam e madeiramento que se espatifava. Gritos e gemidos aumentaram a medonha barafunda, formando um coro horripilante” (O Malho, 16/4/1921, p. 22)

Os vagões do trem, destroçados, iam batendo nas pedras da Serra do Mar no trecho entre as estações de Guedes da Costa e Mário Bello (ambas em Paracambi), perdendo a carga de leite, espatifando corpos, transformando pessoas em cadáveres, gente sã em mutilados instantaneamente. O que sobrou da composição só parou na altura da estação de Ellison. A carreira infernal foi paralisada onde o declive terminava.

Além dos empregados da Estrada de Ferro, havia 80 passageiros no comboio. Quarenta morreram, oito se salvaram milagrosamente e todos os demais ficaram feridos. Benedicto Dantas estava entre os sobreviventes e foi resgatado. Segundo os jornais, “com ferida contusa e perda de substância no pavilhão da orelha esquerda e escoriações na face e no joelho esquerdo, foi para a Santa Casa” (A Rua, 9/4/1921, p. 1).

Entre os mortos estavam famílias inteiras. O único jogador de futebol do comboio, porém, foi para a 16ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia. Seu quadro era lastimável, teve sua orelha esquerda arrancada. Depois de alguns dias, recebeu alta e voltou para Bangu.

A cicatrização não foi fácil. Apesar de viver com a cabeça enfaixada, o risco de infecção era alto. Passou a ter febres e dores lancinantes. Deixou de trabalhar e de ser o alegre jogador que chegou até à Seleção Brasileira. Raramente saía de sua casa na Rua Ferrer.

Oito meses depois do acidente, em 14 de dezembro de 1921, Benedicto, 23 anos, sucumbiu.

“Em Bangu, onde residia, faleceu anteontem à noite, o veterano footballer Benedicto Dantas que, por muito tempo jogou pelo Bangu e não há muito figurava na equipe principal do América. Benedicto morreu depois de muito padecer, mas cercado de muitos amigos, que soube conquistar em vida, pelo seu coração boníssimo e fino trato. Ao seu enterramento compareceram muitos sportsmen, inclusive uma representação do Bangu, que depositou no túmulo do saudoso player uma rica coroa” (A Rua, 16/12/1921, p. 12).

Foi enterrado no cemitério do Murundu um craque a quem a sorte abandonou prematuramente.

Carlos Molinari é torcedor e historiador do Bangu.

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