Fluminense: juniores fortes, profissionais fortes; juniores fracos, profissionais fracos

O campeonato de juniores do Rio de Janeiro, atual Sub20, começou a ser disputado em 1920. Cabe mencionar que de 1920 a 1979, ele foi chamado de Juvenil. A partir de 1980, ele assumiu o nome Juniores. Posteriormente, adotou o nome Sub20.

Por incrível que pareça, o primeiro título do Fluminense somente aconteceu em 1947, 18 anos após o início do campeonato. Esse título abriu o caminho para o pentacampeonato conquistado nos anos de 1947, 1948, 1949, 1950 e 1951.

Em 1952 e 1953, o Fluminense perdeu as finais para o Bangu. Em 1955, novo título. Nas decisões de 1962, 1963 e 1964, o Fluminense foi vice-campeão.

O Fluminense voltou a conquistar o campeonato de juniores em 1968, na presidência de Luís Phelippe Murgel (1966, 1967 e 1968). Esse título deu início a uma fase de ouro das divisões de base do clube. Além da conquista de 1968, fomos vice-campeões em 1969 e campeões em 1970, 1975 e 1976. Em 1969, foi disputada a primeira edição da Copa Cidade de São Paulo. Já nos seus primeiros anos, o Fluminense foi campeão em 1971, 1973 e 1977.

Divisões de base fortes, profissionais fortes.

Nesse mesmo período, conquistamos os Cariocas de 1969, 1970, 1971, 1973, 1975 e 1976, a Taça Guanabara de 1969 e 1971, e o Brasileiro de 1970 (Torneio Roberto Gomes Pedrosa). Nesses anos, a torcida do Fluminense dizia “ano sim, ano não, Fluminense campeão”. Igualzinho a hoje em dia…

Durante a presidência do Francisco Horta, as divisões de base passaram a ser negligenciadas. Os títulos conquistados em 1975, 1976 e 1977 foram frutos do trabalho que havia sido iniciado na presidência de Murgel e mantido nas presidências de Francisco Laport (1969, 1970 e 1971) e Jorge Frias de Paula (1972, 1973 e 1974).

Tanto que depois de 1977, o Fluminense não venceu nada até 1986.

Essa interrupção teve outra consequência. O clube ficou fragilizado justamente quando poderia ter evitado as conquistas do Flamengo do período que vai de 1978 a 1983.

Como assim?

Quando o Flamengo conquistou o Carioca de 1978, o time estava extremamente pressionado pela conquista de poucos títulos no período que vai de 1966 a 1977 (apenas os Cariocas de 1972 e 1974). O gol de Rondinelli contra o Vasco salvou o Zico, que já atuava nos profissionais do Flamengo desde 1971. Se o Flamengo não tivesse conquistado o Carioca de 1978, muito provavelmente o grupo de jogadores do qual o Zico fazia parte teria sido desfeito e a mencionada fase não teria existido. A negligência do Horta com as divisões de base se refletiu nos profissionais do Fluminense. O clube não foi oponente para o Flamengo em 1978. Esse papel coube ao Vasco e ele falhou.

Obs.: por favor, me poupe, se poupe e nos poupe de teorias conspiratórias reptilianas onde a maquiavélica Globo trabalhou para derrubar o maravilhoso Fluminense do Horta e criar o Flamengo do Zico. O Fluminense Football Club é o maior responsável pelas cagadas do Fluminense Football Club.

Já na presidência de Sílvio Vasconcellos, os juniores do Fluminense deram os últimos suspiros: o vice-campeonato da Copa Cidade de São Paulo de 1979, quando o Fluminense foi derrotado pelo Marília-SP, e a formação do time campeão carioca de 1980. Esse time era composto basicamente por jogadores provenientes das divisões de base. As exceções eram Cláudio Adão e Gilberto. Os títulos secaram, mas pelo menos as divisões de base seguiam revelando jogadores.

Aqui nós temos que lembrar de uma dinâmica das divisões de base: elas têm que funcionar como um relógio, e nada, absolutamente nada, pode atrapalhar esse relógio. Digo isso pois como a promoção de atletas ocorre o tempo todo, as divisões anteriores têm que estar aptas a abastecer as divisões posteriores. Como assim? A grosso modo, com a subida de juniores para os profissionais, os juvenis têm que repor os juniores, que por sua vez têm que ser repostos pelos infantis.

O Horta interrompeu esse relógio.

O problema dos juniores também se refletiu nos profissionais. De 1977 a 1982, nós conquistamos apenas o já mencionado Carioca de 1980. O jejum dos juniores seguiu com o Sylvio Kelly, presidente do triênio 1981, 1982 e 1983. Juntando os pedaços de informações que temos, vemos que Kelly voltou a olhar para as divisões de base, mas para acelerar esse processo, passou a trazer jogadores muito jovens de fora para o clube como Branco e Jandir. Eles foram mesclados com jogadores que subiram das divisões de base como Delei (ao que me consta, último remanescente do time de 1980), Ricardo Gomes e Paulinho. Os demais eram jogadores novos, mas que já atuavam nos profissionais dos seus clubes como Paulo Victor, Aldo, Duílio, Leomir e Washington. A exceção, quem diria, era Assis que chegou ao Laranjal com 32 anos. No ano seguinte, já sob a administração de Manoel Schwartz, chegaria Romerito no auge dos seus 24 anos.

Se com o Sylvio Kelly os juniores não voltaram a conquistar títulos, foi em sua presidência que o time do tricampeonato foi montado.

Aqui eu relembro uma questão que volta-e-meia eu escuto: “divisão de base tem que revelar jogador. Ganhar título é secundário”. Na minha opinião, esse raciocínio é de uma estupidez colossal, de uma limitação grosseira e absurda. Divisão de base tem que revelar jogador e ganhar todos os títulos possíveis e imagináveis. Ela tem que incutir nos garotos a gana pela competição, pela vitória, pela conquista de campeonatos. Isso acaba se refletindo no comportamento dos jogadores quando eles sobem para os profissionais. Por exemplo, você já se deu conta como os Sub20 do Fluminense sobem e são aproveitados nos profissionais nos últimos anos?

Enfim…

Em 1984, o Manoel Schwartz assumiu a presidência para o triênio 1984, 1985 e 1986. Ele deu prosseguimento a política do Sylvio Kelly de dar atenção aos juniores e jogadores mais jovens. Esse trabalho levou a uma pequena, mas brilhante fase de conquistas, interrompendo o jejum de títulos dos juniores.

No último ano do seu mandato, o clube voltou a conquistar a Copa Cidade de São Paulo, título que não vencia desde 1977. Esse trabalho seguiu rendendo frutos na presidência de Fábio Egypto (1987, 1988 e 1989), que o destruiu.

Schwartz entregou ao Egypto as divisões de base formando os jogadores que viriam a substituir os jogadores do time do tricampeonato de 1983, 1984 e 1985 e do Brasileiro de 1984. Egypto recebeu esse time e o jogou na lata do lixo.

Para que vocês vejam como essas coisas são confusas, em sua presidência o Fluminense foi campeão carioca de 1988, título que não conquistava desde 1976, e da Copa Cidade de São Paulo de 1989. Os títulos foram na sua presidência, mas ele não teve mérito nas conquistas? Nenhum.

Os juniores passaram a ser promovidos de qualquer jeito aos profissionais. Vários garotos foram queimados de forma leviana, irresponsável e criminosa. Eu me lembro de uma vez ter visto um Globo Esporte em 1989 que mostrava o técnico Othon Valentim gritando num coletivo com os garotos que haviam subido para os profissionais. A gestão do Fábio Egypto, ou a falta dela, criou um clima hostil e pesado no clube. Um verdadeiro moedor de carne. Alguns deles terminaram tendo como destino o Bragantino, clube pelo qual conquistaram o Campeonato Paulista de 1990 e o Vice-Campeonato Brasileiro de 1991, eliminando um certo clube carioca na semifinal, em pleno Maracanã, com um gol marcado por um dos seus ex-juniores (Franklin).

A propósito, se você for pular para defender o Horta no que se refere a negligência dos juniores, seja coerente e defenda o Egypto também. Título na gestão não quer dizer que um bom trabalho foi feito.

E o que aconteceu depois da nefasta presidência de Fábio Egypto. Os juniores do Fluminense não ganharam absolutamente nada de 1990 a 2002. Na-da. Naaaaadaaaaa. Nem vice-campeonato carioca ou da Copa Cidade de São Paulo.

O Fluminense passou em branco nas presidências de Ângelo Chaves (1990, 1991 e 1992), Arnaldo Santiago (1993, 1994 e 1995), Gil Carneiro de Mendonça (1996) e Álvaro Barcelos (1997 e 1998). Manoel Schwartz, que faleceu em dez/2003, foi presidente de ago/1998 a jan/1999. Ele não pode ser colocado nesse bolo pois já estava muito idoso, não teve tempo para fazer qualquer mudança e presidiu o clube quando absolutamente ninguém queria. Ele cumpriu a última missão que a vida lhe reservara.

Nesse período, os juniores jogavam antes dos profissionais. Se já era difícil acompanhar os profissionais, os juniores então eram uma lástima. Ao invés de chegar cedo para ver os juniores, eu chegava tarde para ver apenas o final da vergonha. O negócio era tão ruim, que eu tenho apenas uma única memória dos juniores nesse período. No segundo Fla x Flu do Carioca de 1995, vencido pelo Fluminense por 3×1, os juniores venceram o Flamengo por 4×1. Poucas vezes eu fiquei tão feliz no Maracanã. Sacode nos juniores, sacode nos profissionais. Mas essa é a minha única lembrança de uma dobradinha inesquecível. De resto, era só porrada e vergonha.

Inclusive, o time de 1995, único título de respeito desse período, era quase todo formado por jogadores de fora do clube. Do time que disputou a partida decisiva contra o Flamengo, apenas Wellerson e Cadu vieram das divisões de base.

Esse período, um verdadeiro deserto, te lembra alguma coisa?

Pois é. Da mesma forma que divisões de base fortes levam a profissionais fortes, divisões de base fracas levam a profissionais fracos. De 1990 a 2002, ganhamos apenas o já mencionado Carioca de 1995 e o de 2002, fomos rebaixados para a série B em 1996 (cancelado) e 1997, fizemos uma Série B horrorosa em 1998 e fomos rebaixados para a Série C de 1999. Conquistamos esse título, mas passamos apertos em alguns momentos.

Isso pode ser tudo, menos coincidência.

Em 1999, David Fischell assumiu os escombros do que havia sido um dia o Fluminense. Ele foi presidente por dois mandatos, de 1999 a 2004. Nas suas presidências, as divisões de base foram reorganizadas e os juniores quebraram o jejum de títulos conquistando os cariocas de 2002, 2003 e 2004. E vou além. Nesse mesmo período, o Fluminense também foi tricampeão dos juvenis: 2001, 2002 e 2003 (havia sido campeão de juvenis em 1999). A recuperação do Fluminense chegou a ser construída.

O ano de 2004 marcou uma mudança na postura da Unimed que passou a ser a tônica até o final de sua relação com o clube. Depois de trazer Romário e Beto em 2002, a Unimed contribuiu decisivamente para formar o time em 2004 com Romário, Edmundo, Ramon e Roger, que ficaram conhecidos como os “Galáticos”, referência patética ao Real Madrid da época. No que isso deu? Em nada, mas quem pagou o preço foram as divisões de base que foram relegadas a segundo plano nas presidências deRoberto Horcades (de 2005 a 2010).

Com isso, os títulos voltaram a escassear nos juniores. Nos seis anos do Horcades, fomos campeões em 2008 e vice-campeões em 2010. Nos profissionais, quase conquistamos a Copa do Brasil de 2005, primeiro ano de sua primeira presidência, com dois jogadores fundamentais que foram formados na gestão Fischel: Diego Souza e Arouca.

Depois do Horcades, vieram as duas presidências de Peter Siemsen (de 2011 a 2016). Fomos bicampeões em 2012 e 2013, último título. Depois disso, só o vice-campeonato de 2014. De lá para cá, nada. Quer dizer, uns torneiozinhos sem-vergonha que a turma da narrativa fica querendo enfiar goela abaixo que são super-mega-importantes.

Em 2015, aportou no clube um dos maiores símbolos da mediocridade e do blablabla que já passaram nas divisões de base do Laranjal desde jul/1902: Marcelo Teixeira.

Pois é. Se nos profissionais não ganhamos nada desde 2012, nos juniores não ganhamos nada desde 2013.

Isso pode ser tudo, menos coincidência.

Quem sabe o Brasileira Sub17 traga novos ares ao Laranjal.

Jorge Priori é torcedor do Fluminense e gosta muito de história.

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